Ariel Pires de Almeida

Destruição e criação – a dialética da modernidade

Em Uncategorized em 05/12/2011 às 19:27

Moderno e pós moderno

 

A característica última do homem moderno é o mal estar. A da sociedade moderna é a Revolução. Sua marca é a luta contra o tempo e o desamparo perante a tradição, conseqüência da ação de negá-la. O que ronda a Europa amedrontada, afligida e revolucionária, é o fantasma da multidão, encenado primordialmente nas barricadas de 1848, mas celebrada plenamente na Comuna de Paris em 1871. A Revolução é um ato contra o tempo, por isso, não ao acaso, nas ruas parisienses quebrariam relógios e atentariam contra os símbolos, marcas da tradição que insiste em persistir. A Revolução se volta ao futuro contra o passado.

Mas, nesta dialética desconcertante, a reação também se coloca à disposição da destruição. Em termos políticos, a criação de uma nova maneira de agir a partir da mídia com a criação de imagens e novos fantasmas, como o caso de Luis Napoleão, o fantasma do tio encarnado[1]. A reforma urbana de Paris, efetuada por Haussman e concluída por Bismarck na repressão ao movimento de 71, é pautada na lógica da destruição. Tem fim a cidade como lugar de conspiração, repleta de becos e vielas, enfim, a cidade como personagem revolucionário. Surge a metrópole urbana, palco central da vida moderna, racionalizada, vigiada e voltada à circulação. Põe fim à vida comum e abre espaço ao anonimato, ao estranhamento em relação ao outro, ao sujeito imerso no maquinário da vida. Na lógica do modo de produção de mercadorias que é a lógica da produção de imagens e desejos, a promessa nunca se realiza e o sentimento é de impotência e perda perante uma sociedade que é um verdadeiro espetáculo.

A experiência moderna, portanto é esta da sociabilidade contemporânea sob o signo do capitalismo industrial. Em termos estéticos, é a experiência da efemeridade, da desagregação, da quebra constante de todas as tradições, enfim, a constante transformação. Segundo Marshall Berman, ser moderno “é experimentar a vida pessoal e social como um turbilhão, é ver seu mundo em perpétua desintegração e renovação. (…) Ser modernista é procurar, de alguma forma, sentir-se em casa neste turbilhão” [2].

Pensado nesta ótica, não existe tal absoluta diferenciação do que seria modernismo ou pós modernismo. De fato, muito mudou. A idéia do capitalismo transnacional ou pós industrial, a crise das ideologias que moldaram os séculos precedentes. Mas, segundo Fredric Jameson, tomar uma posição a respeito da pós-modernidade acaba sendo necessariamente uma posição política a respeito da transformação no capitalismo tardio. O autor então se perguntaria, “será que isso implica uma mudança de estilo, ou de moda, determinadas pelo velho imperativo de mudanças estilísticas típicas do alto modernismo” [3].

Essa conceitualização é consonante com Berman, mas veementemente criticada por Perry Anderson. Para o autor, o modernismo europeu surgiu entre um “passado clássico ainda utilizável, um presente técnico ainda indeterminado e um futuro político ainda imprevisível” [4]. O auge do modernismo seria, portanto o entreguerras (1919-39). A Segunda Guerra Mundial (1939 – 45) destruiria a vitalidade deste movimento por acabar com a antiga ordem aristocrática e universalizar a democracia burguesa, além de difundir o fordismo e o consumo em massa. A exceção é feita a alguns recantos do terceiro mundo onde ainda não se romperam algumas ligações críticas com o passado pré-capitalista. A civilização capitalista tornou-se opressivamente estável e monoliticamente industrial. O artista contemporâneo vive, portanto sob um horizonte fechado, sem um passado a apropriar ou um futuro a imaginar, apenas um presente a vivenciar[5].

Mas, não caberia refletir que esta ordem destrutiva, sem passado e pouco futuro não seria exatamente o proposto acima do que seria a forma de ser modernista? Ou como diria Berman, quando os horizontes se fecham, as pessoas não abririam novos? Não seria a decepção que instiga a criatividade humana para a transformação? A modernidade é uma revolução permanente, inconseqüente e ininterrupta ou pontual, política, realizada contra uma formação tipicamente estatal?

Destruição, arte e guerra

 

Importante para pensar os dilemas, ações, continuidades e descontinuidades do movimento moderno e modernista é retornar às obras de Walter Benjamin. A partir de suas explanações em Teorias do fascismo (1930) e A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica (1936) é plenamente possível enxergar os contornos das conclusões de um processo iniciado em meados do século XIX com os desenvolvimentos técnicos da arte e da guerra e com o início de movimentos como o da art pour l’art.

O advento da fotografia revela a crise que se aprofunda nos anos subsequentes. Reagindo com ‘a doutrina da arte pela arte’, desenvolve-se o que o autor chamaria de ‘teologia da arte’.  Desta resulta uma ‘teologia negativa da arte’, a ‘arte pura’ que rejeita sua função social e determinação objetiva[6].

A reprodução técnica da obra de arte coloca uma situação nova em que esta perde seu caráter ritualístico e, portanto perde sua inserção no contexto da tradição. Retirada sua aura, isto é, seu caráter único e autêntico, a obra de arte se emancipa, passando a ser criada com o único objetivo de ser reproduzida. Sua função social transforma-se e sua práxis passa a não mais se fundar no ritual, mas sim na política. Passado a este terreno, a arte pela arte se metamorfisa na “guerra pela guerra” consumada no holocausto da guerra dos gases. O que está em cheque é a aceleração da constituição de instrumentos técnicos que fogem do controle do indivíduo por não encontrarem uma justificativa prática e completa de sua utilidade. Portanto, justificam-se na guerra, que, por sua vez, justifica-se na aceleração do desenvolvimento técnico.

Nesse sentido, “a guerra imperialista é co-determinada, no que ela tem de mais duro e de mais fatídico, pela distância abissal entre os meios gigantescos de que dispõe a técnica, por um lado, e sua débil capacidade de esclarecer questões morais, do outro” [7].   A primeira questão seria então de privar da guerra seu traço racional o que encontraria na Alemanha seu auge inconteste. O idealismo alemão substitui a noção de vida universal pela morte universal, ao mesmo tempo em que cria uma batalha contra o materialismo.

Com o cinema e a fotografia, a representação do homem pelo aparelho resulta em uma auto-alienação do homem com aplicação altamente criadora. Isto é, a imagem especular torna-se transportável e destacável para onde possa ser vista pelas massas. Isso implica que esta passará a controlá-la reforçada por seu caráter invisível. A questão de o capitalismo controlar tal técnica revela seu caráter contra-revolucionário, apesar das oportunidades verdadeiramente revolucionárias de tal controle. Surge, portanto o culto ao estrelato, mas também seu complemento, o culto do público. Nesse sentido, estimula “a consciência corrupta das massas, que o fascismo tenta por no lugar de sua consciência de classe” [8]. Ao lado do cinema, a arquitetura é o protótipo de arte recebida pelas massas.

Relacionando essas duas formas em sua conjunção com o fascismo, chega-se ao filme Arquitetura da destruição de Peter Cohen (1992). Segundo Benjamin, o fascismo permite a expressão das massas com a conservação das relações de propriedade através da estetização da política. Esse fato só é possível com a estetização da guerra, pois somente ela “permite dar um objetivo aos grandes movimentos de massa, preservando as relações de produção existentes. (…) A guerra é bela, porque inaugura a metalização onírica do corpo humano” [9]. Cada Comício nazista era uma obra de arte, verdadeira ópera. Cada Exibição é uma propaganda e uma justificação para as pretensões e ações desumanas do Nacional Socialismo. E cada Propaganda é fruto do gênio artístico de Hitler, desde a insígnia do Partido, o estandarte, à organização dos eventos e seus espaços. É o cenógrafo, diretor e ator principal de sua ópera. O coadjuvante é apenas um, o “Corpo Alemão”, puro ariano, a massa. Ela é o público receptor do ator – o Fuhrer – que tem consciência que, diante da câmera, sua relação é íntima com as massas.

O gênio artístico de Hitler é exposto em sua ‘vocação’ de arquiteto. Constantemente retratado por Cohen e talvez melhor manifestado na maquete do museu de Linz, sua cidade natal, e no plano urbanístico de reconstrução da Grande Berlim. Diz-se que Hitler refletiu muito se destruiria Paris quando de sua conquista. Ao pensar, decidiu que a capital do Reich seria muito mais vistosa quando pronta – nos anos 50 – que a pequena capital francesa, não sendo necessário tal ato desproporcional. A guerra, segundo Benjamin, também é bela por criar novas arquiteturas, a Arquitetura da destruição – os tanques, a geometria de combate, os campos. A guerra dos gases, o holocausto nazista ou americano é a consumação da liquidação da aura, a forma mais perfeita da arte pela arte. É um espetáculo para si mesmo, a auto-alienação que atinge o ponto em que se assiste à própria destruição como um prazer puramente estético.

O filme segue uma lógica narrativa e uma estrutura conceitual que se centra numa História Estética da Alemanha Nazista. Levando em conta que sua ideologia partia de uma premissa estética – a beleza como ideal de progresso e esta embasada na saúde não miscigenada e, portanto, pura – seria coerente tê-la como referência de análise. Muitos desenvolveram a ideia de um estudo político-econômico ou social acerca do Nacional Socialismo. Entretanto, será que foi de fato o autoritarismo, o controle estatal da economia ou o status beligerante que resultou no maior e mais organizado sistema de massacre? Desses temos muitos casos e, por mais que também tenhamos de genocídios, nenhum com a mesma proporção que o perpetrado pelo regime nazista.

A estética da pureza, idealizada por Hitler na figura espartana, recria as funções sociais de cada classe. Dá um novo sentido à medicina, um quase novo objetivo à arquitetura e urbanismo e um estilo radical à política, economia e guerra. Se a “guerra total” é o novo conceito introduzido pela Revolução Francesa e consolidado ao longo da unificação alemã, com Hitler atinge seu extremo quando a população civil não só é vitimizada e posta para trabalhar para a indústria de guerra como também é perseguida e chacinada pelo monstro que ajudou a criar.

 

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Conclusão: moderno e anti-moderno

 

A condição fascista é a recuperação da história de seus detratores, a perseguição do fantasma da derrota. A história, portanto é o lugar da Verdade Absoluta e o futuro seria o reencontro com as origens, a reinvenção do passado no presente. É comum tanto ao fascismo italiano quanto ao alemão o culto à Antiguidade. Peter Cohen lembra o apego da ideologia nazista à História, em especial dos espartanos (por sua pureza), atenienses (pela estética clássica) e romanos (pelo ideal expansionista). Daí o asco ao movimento modernista colocado como judaico bolchevique.

A cultura moderna nega radicalmente a História e toda a herança imediata. Olha ao futuro e no último prevê o fim da História. É a base profunda da filosofia marxista que é escatológica e coloca no passado o lugar da escravidão. A guerra é contra a tradição. A metralhadora é o símbolo dessa luta pela higiene do mundo. A idéia de destruição restauradora do futurismo italiano de Marinetti.

“Paradoxalmente, o esforço de lançar fora os grilhões da história acelerou os processos históricos, pois a indiferença por qualquer relação com o passado libera a imaginação, permitindo que proliferem novas formas e novas construções. Inversamente, a consciência da rápida transformação na história presente enfraquece a autoridade da história como passado relevante”[10]. Será na decadente Áustria, aristocrática e desagregada que nascerão os grandes expoentes modernistas anti- históricos tanto na estética – como Cocoshka, quanto na ideologia – como Freud. Será também o do historicismo de Adolf Hitler.

 

 

 

 

 

 

 

Bibliografia

 

Schorske, Carl E. – Viena fin-de-siècle. Política e Cultura. Editora Unicamp Cia das Letras

 

Benjamin, Walter – Magia e técnica, arte e política. Ensaios sobre literatura e história da cultura. Obras escolhidas Vol. 1. Ed. Brasiliense. São Paulo, 1985

 

Berman, Marshall – Aventuras no marxismo. São Paulo, Companhia das Letras, 2001.

 

Jameson, Fredric – Pós-Modernismo: A Lógica Cultural do Capitalismo Tardio. Ed. Ática.

 

Anderson, Perry – Afinidades seletivas. Ed. Boitempo, 2002.

 

Marx, Karl. O 18 Brumário de Luís Bonaparte. In: MARX, Karl e ENGELS, Friedrich. Textos. Vol. III. São Paulo: Edições Sociais, 1977.

 

 

 

 

Filmografia

 

Arquitetura da destruição. Peter Cohen, Suécia, 1992

 

 


[1] MARX, Karl. O 18 Brumário de Luís Bonaparte. In: MARX, Karl e ENGELS, Friedrich. Textos. Vol. III. São Paulo: Edições Sociais, 1977.

[2] Berman, Marshall – Aventuras no marxismo. São Paulo, Companhia das Letras, 2001. P. 174

[3] Jameson, Fredric – Pós-Modernismo: A Lógica Cultural do Capitalismo Tardio. Ed. Ática. P. 28

[4] Anderson, Perry – Afinidades seletivas. Ed. Boitempo, 2002. P. 114

[5] Idem. P. 118

[6] Benjamin, Walter – Magia e técnica, arte e política. Ensaios sobre literatura e história da cultura. Obras escolhidas Vol. 1. Ed. Brasiliense. São Paulo, 1985. Pag. 171

[7] Benjamin, Walter – Magia e técnica, arte e política. Ensaios sobre literatura e história da cultura. Obras escolhidas Vol. 1. Ed. Brasiliense. São Paulo, 1985. Pag. 61.

[8] Idem. P. 180

[9] Idem. P. 195

[10] Schorske, Carl E. – Viena fin-de-siècle. Política e Cultura. Editora Unicamp Cia das Letras. P. 14

Lemos, Renato – A alternativa

Em Uncategorized em 26/07/2011 às 22:48

republicana e o fim da monarquia, in: Grinberg, Keila e Salles, Ricardo (orgs.)O Brasil Imperial. RJ,
Civilização Brasileiro, 2009, vol. 3, 401-444

            A questão do autor é o
desenvolvimento do republicanismo, como base ao federalismo oposicionista do
Império, em conformação de uma alternativa ao poder Bragança. O ano chave é
1870. Interessante é a lembrança das atitudes já anti-comunistas no seio
político dominante, apesar da inexistência de uma classe operária. Mas, o ponto
chave é o fato de não haver uma classe específica que conduz os interesses
republicanos, além da relevância do papel das forças armadas.

Portanto, é a partir desta não
disposição revolucionária se assentará um movimento golpista, baseado na
indisposição imperial para com os assuntos relativos em especial à escravidão e
ao federalismo.

O ‘sentido’ histórico do surgimento
do republicanismo em Manifesto nesta década é a superação das antigas
estruturas coloniais. Importante também é salientar a relação com a política
econômica de valorização do café que passa por ciclos de superprodução e a
estabilização da ordem republicana oligárquica nos termos da ‘política dos
governadores’.

A acumulação de capital no setor
agroexportador, dinamizado na cafeicultura e consolidado na independência
política traz a primeira experiência de utilização dos recursos autonomamente
pela nação e Estado. A cafeicultura se divide dentre produtores escravocratas
do Vale do Paraíba e utilizadores de mão de obra assalariada do Oeste Paulista.
Este último suplantaria o primeiro em 1890.

Finalmente, a questão do tráfico
africano que, com sua supressão desviaria remessas de capitais para setores
legitimamente produtivos. A questão, para Lemos, é que seu desenvolvimento
seguiu o caminho da superação dos moldes exclusivamente agroexportadores do
Estado. A agricultura não mais seria o único campo de sério ou vultoso
investimento. Por além, cabe ressaltar a entrada maciça de capital
internacional, proveniente em especial de Londres para negócios com bancos,
ferrovias e navegação.

O problema é que o poder político
parecia não assentar os novos grupos de interesse que surgiam neste processo
vigoroso de mudanças. Este era assentado primariamente na grande propriedade
rural e na força de trabalho escravo organizados nos Partido Liberal e
Conservador, mantidos em ordem pelo poder Moderador. As desigualdades
acentuaram-se. Enquanto a riqueza provinha do Sul, a aliança se fazia com o
Norte, por onde se desloca a base de governo. Eis que surge a importância
inevitável da Província de São Paulo.

É a Guerra do Paraguai que resume o
que desfecharia com a assinatura de 1888, a lei Áurea. O conflito fora a linha
divisória que separa o apogeu da crise e o advento do radicalismo republicano e
abolicionista, em especial nas forças armadas regressadas – recheadas de
escravos recém-libertos. O empreendimento intelectual envolveu os próprios
críticos do regime, com destaque a Joaquim Nabuco e ao positivista Benjamin
Constant. Encaminha-se a redação do Manifesto Republicano.

A realidade para Lemos era que os
republicanos, em verdade, assumiriam um caráter deveras oportunista, em
especial no tocante à escravidão. A necessidade de apoio aos fazendeiros
paulistas era notória. A ideia era que a própria monarquia se resolvesse com o
escravismo para poderem disfrutar dos espólios e butins dos descontentes tanto
com a morosidade da abolição quanto da abolição em si, com suas práticas indenizatórias.

A questão era a perspectiva
contra-revolucionária da ação abolicionista, no sentido de assegurar a
manutenção da ordem e do progresso. Daí o gradualismo e as indenizações. O
espectro do haitianismo e da guerra civil norte americana rondavam os
corredores das Assembleias Legislativas e Conselho de estado. Para os cariocas
a questão se resumia no controle e na ordem. Havia, entretanto os defensores da
vertente revolucionária, identificados com o jacobinismo francês.

Finalmente, a ação dos militares na
política desferiu o golpe final que seria concluído no 15 de setembro. A
questão militar, ao lado do abolicionismo, da famosa querela de Christie e na
discordância religiosa forma os marcos no caminho golpista à República
Oligárquica.

Benjamin Constant, Sena Madureira,
Deodoro da Fonseca foram os artífices da vitória, alijados no apoio do e ao
Partido Republicano. O potencial explosivo da conjuntura do momento marcava a
ausência de uma direção revolucionária e emergia o aspecto essencialmente conservador
da liderança republicana militar.

Por fim, a república não
transformaria as bases de dependência externa de nosso país. Assim como não
modificaria a submissão dos escravos libertos, mas implantaria a tão desejada
reforma federalista na ‘política dos governadores’.

Neves, Lucia Bastos – Corcundas e

Em Uncategorized em 26/07/2011 às 22:48

constitucionais. A cultura política
da independência (1820-22).
RJ, Ed. Revan/Faperj, 2003. Capítulo
12

            A questão proposta pela autora nas
discussões acerca do movimento emancipatório a partir das cortes de Lisboa é a
idéia da constituição de um corpo legislativo que representasse num caráter
mais exclusivo a elite brasiliense. A proposta era que apenas um corpo
representativo dos interesses brasileiros poderia salvar o país da anarquia que
adviria das Cortes Lisboetas. O perigo parecia iminente, mas a idéia era a
criação de um poder legislativo consonante com as prerrogativas de Lisboa. O
interesse transpareceu por parte da elite brasiliense de dotar o país com uma
instituição – assembléia legislativa – que amparasse a legitimidade da
soberania popular.

A oposição fora crescente, em
especial à questão de soberania que jamais deveria emanar do populacho. O
choque se deu entre a coimbrã e a brasiliense, embasado em certo “catecismo
jacobino” e em novos espaços criados pela cultura política liberal.

Surge então a Assembléia
Constituinte (3/06/22), marco deveras mais notório que a proclamação do
Ipiranga da separação política do Império do Brasil. A polêmica que seguiria
seria a da forma de se eleger os membros da notável instituição. No caso, a
disputa entre eleições diretas ou indiretas. Optaram pela segunda, devido à
ignorância generalizada da população livre e o temor a tumultos. Consegue se
oficializar apenas a três de maio de 1823.

A questão para Neves era o fato de a
Assembléia por muito ainda se assentar na continuidade da união luso
brasileira. O Brasil, nesse sentido, se equivaleria a Portugal. A partir daí, a
política operará na divisão social dos interesses partidários. Os exaltados, os
partidários da “anarquia”, os lusófilos, absolutistas e liberais. Com o tempo,
o Partido Liberal e o Partido Conservador, saquaremas e luzias em todas suas
semelhanças. A idéia era terminar o “ignomioso estado colonial” sem,
entretanto, perder a autoridade de D. João VI e das instituições
representativas européias.

Todavia, havia um “espírito de
independência” em todas as antigas capitanias. O que agravaria seria a tomada de
frente do processo pelo oportunista príncipe Bragança, Pedro. Seria ele que
tomaria esta frente contra as Cortes, qual seu pai não poderia. De fato, nossa
independência foi uma contra revolução e despertavam-se os fantasmas do
despotismo ibérico. O ambiente político ideológico estava carregado.

As Cortes, portanto enviaram tropas
para impedir o estado de anarquia e reafirmando suas pretensões NÃO
recolonizadoras. A concepção – polêmica em natureza – federalista era
amplamente discutida como possível rumo ao Império luso-brasileiro.

Um dos pontos de destaque para a
autora é o fato de o Príncipe estar extrapolando suas faculdades como
governante no Brasil. Finalmente, as atitudes da Junta de São Paulo, somadas às
do próprio Pedro, fez necessária uma redação de compromisso que propunha a
condenação aos crimes brasileiros. A questão se envolveu com a virada do ano na
volta do Príncipe que declarou que Ficaria, sustentando o ódio crescente dentre
portugueses e brasileiros. Ficara claro que a conciliação só seria possível se
respeitada igualdade dos dois reinos perante a Constituição.

Para Neves, paradoxalmente as
atitudes que transpareciam a brasileiros como constitucionais ou mesmo
democráticas eram vistas por Lisboa como anti- constitucionais e despóticas.
Seria em setembro, com o envio das decisões das Cortes que previam o processo e
julgamento da Junta Provincial de S. Paulo que o grito se revelaria.

Ficaria claro a partir de então duas
questões importantes. Primeiro, o caráter “absolutista” da separação de 1822.
Segundo, a questão por si da Constituição, além é claro da unificação do
Império que se dividia em simpatias e antipatias às Cortes de Lisboa. Assim,
travou-se a guerra contra pernambucanos, baianos, paraenses e cisplatinos. Cabe
reconhecer como fora pouco divulgado o grito às margens do Ipiranga nos jornais
da época.

O que de fato significou este
processo é mais obscuro. A questão é a “interiorização da metrópole” que cria
interesses inter-relacionantes dentre as elites nativas e adventícias. O fim do
Reino Unido significaria desemprego e crise. A luta entre brasilienses e
coimbrãs acaba se pautando nos ideais franceses de maior radicalidade por parte
dos primeiros. A partir, a consciência nacional começa a se concretizar como a
posteriori ao processo separatista. Neste sentido, a separação de 1822 é de
fato um rompimento profundo ao estado de coisas de 1808.

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