Ariel Pires de Almeida

Economia e mundo

In Uncategorized on 22/08/2009 at 00:13

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Uma temática muito interessante para ser analisada para a primeira metade de nosso período colonial são as invasões holandesas (1624-5/1630-54), seu desenvolvimento e desdobramentos. Para isso, fora selecionado dois textos que observam esse movimento por ângulos bastante diversos, porém com um arcabouço teórico-conceitual de certa forma semelhante. Tanto Evaldo Cabral de Mello quanto Charles Boxer baseiam sua interpretação em teorias marxistas e/ou estruturalistas (Fernand Braudel). Entretanto, o ponto de onde partirão para a análise se distingue essencialmente pela abrangência, distanciamento e método de cada um.

Em O império marítimo português (1415-1825), 1969, no capítulo intitulado A luta global com os holandeses (1600-63), Boxer busca uma análise estrutural das transformações no século XVII do sistema-mundo europeu, sua ampliação para o resto do globo. O agente dessa mudança – a transferência do eixo do sistema do mediterrâneo para o atlântico a partir do mar do norte – são os holandeses. A guerra dos oitenta anos contra o império de Filipe II representou a luta global que culmina com essa transformação. Para o autor, esse conflito merece muito mais a honra duvidosa da alcunha de Primeira Guerra Mundial do que a “carnificina de 1914-18” (BOXER, p.120).

Os portugueses acabarão por serem os mais atingidos nesse processo, devido a União das Coroas Ibéricas (1580-1640), concomitante a esse desenvolvimento. Unidos aos espanhóis, acabam necessariamente tornando-se inimigos dos holandeses. Mais que numa situação de fogo cruzado, Portugal se verá engolido pelas novas forças de renovação do capital. A disciplina militar, a moral puritana do trabalho, o zelo da construção sobrepujarão o desleixo, a aventura, enfim, a moral fidalga católica. Isso na Ásia, parte da África, mas não no Brasil. O resultado fora equilibrado: derrota portuguesa na Ásia, empate na África e vitória no Brasil. Entretanto, levando em conta que a essência do império português é o fato de ser marítimo, isso é, sustentado por diversas bases – feitorias – em pontos estratégicos dos oceanos, ao perder uma importante parte desse império, perde-se tudo. A estrutura necessária para a manutenção de um império colonial deixa de existir e Portugal volta a olhar para si próprio e para o que lhe resta. Reformula-se a estruturação mental, política e econômica, já que o sentido de sua colonização fora em origem o oriente asiático. Contentar-se-ão com a América – ou ao menos parte dela, já que a península ibérica perde o controle de parte da América Central e boa parte do Norte para ingleses, franceses e holandeses – e com um relevante pedaço do tráfico negreiro africano.

Mas porque conseguem recuperar Pernambuco? Ou, porque os holandeses fracassaram em Pernambuco? Boxer e Sérgio Buarque de Hollanda parecem concordar de certa forma. Para o primeiro, os portugueses haviam fixado raízes mais profundas no lamacento solo tropical, habituaram-se melhor a ele. Os homens que venceram nos Guararapes eram homens habituados ao sol escaldante, à luta nas veredas e nas ruas estreitas (BOXER, p. 134). Havia inclusive um importante chefe militar negro (Henrique Dias) e um indígena (Felipe Camarão), ambos de puro sangue. Para Sérgio Buarque, os holandeses buscaram implantar uma cultura urbana e pública que não condizia com a estrutura paternalista e rural – porém, não agrícola – organizada desleixadamente pelo português aventureiro em busca de lucros fáceis, feitorizando pequenas partes de todo o mundo (Raízes do Brasil, Sérgio Buarque de Holanda, 1936).

É nesse ponto da História que Evaldo Cabral de Mello irá se deter na análise da Metamorfose da Açucarocracia. O imaginário da restauração, da expulsão dos holandeses irá criar nas classes dominantes de Pernambuco a idéia de salvadores de algo semelhante ao que viria a ser a Pátria. Um princípio de nativismo com características essencialmente aristocráticas. Os ‘netos dos restauradores’ desenvolvem verdadeiras genealogias e linhagens nobiliárquicas cujo ponto de partida são os guerreiros que expulsaram o elemento herético da América portuguesa. Algo semelhante ao que a burguesia cafeeira paulista irá realizar quase trezentos anos mais tarde. Para estes o ponto de partida é Tibiriçá, o primeiro índio catequizado por José de Anchieta e cuja filha se casou com o lendário João Ramalho. Esta é a origem do mito da nação, pois esta união representa o surgimento do bandeirante que explorará e unificará o Brasil. É a vertente paulista de nossa ideologia nacionalista.

Nossa colonização criou uma estrutura que tendia necessariamente a um certo ‘espírito’ de fidalguia. A escravidão talvez seja um dos motivos para tal asco por trabalhos manuais e gosto pela ostentação e títulos. A guerra – o que caracteriza um nobre – traz a esses senhores de engenho pernambucanos a idéia de serem os verdadeiros fidalgos do Brasil. Os reinóis que vinham traficar como mascates e se instalavam em Recife – a cidade dos hereges – eram tidos como inferiores e usurários. A tensão que entra em choque com a queima da cidade de Olinda pelos holandeses na década de 1630 e se consome com sua expulsão e reconstrução da cidade, permanecerá inerte, mas presente pelos próximos sessenta anos. Irá eclodir novamente em 1710 na guerra dos mascates que opôs os reinóis de Recife aos representantes da Câmara Municipal de Olinda – senhores de engenho. No desenrolar desses anos (1654-1710), desenvolveu-se a figura da ‘açucarocracia’, metamorfoseada na ‘nobreza da terra’.

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