Ariel Pires de Almeida

O TOTAL E O PLURAL (I)

In Uncategorized on 09/12/2009 at 23:11

Paremos por um momento nossos pobres afazeres. Desliguemos nossa TV,deixemos o feijão no fogo e a lascívia de lado. Reflitamos, que seja por um instante, a respeito do exagerado e do sensato, do aglutinador e disperso, grandiloquente e eloqüente, sangrento e violento; pensemos, enfim, sobre o totalitário e o democrático. Não com o objetivo foco de julgamentos vãos, frios ou ambientalistas. Conhecemos seus valores, suas qualidades.  Não é a isso que compete reflexões que levem em conta o mundo real social que nos envolve. Antes de colocar, indagar, defender ou refutar tal ou qual idéia a respeito de tal ou qual forma de reger assuntos públicos, lembremos que essas mesmas tais ou quais opiniões remetem a outras tantas tais ou quais classes ou estratos sociais. Nosso trabalho é diferenciar os temperos e compor os sabores desse extrato de tomate social.

Para isso, talvez seja útil uma breve palavra. As classes sociais que se interpõem e se opõem são as produtivas e produtoras. As possuidoras dos meios que contratam os manuzeadores para os fins, produtos. Capital e Trabalho é a oposição que da sentido à constatação da existência do sistema capitalista. Entretanto, não seriam ambos parte de um mesmo bloco dialético que em verdade rivaliza com outro tão heterogêneo quanto conflituoso? Se empresários e sindicalistas conseguem em certo sentido diálogo é porque às vezes se é possível a conciliação do que tudo quer com o que pouco pode. A vontade política de cada lado por mais difusa, é, por menos, palpável, empírica, real: o luxo e o lixo.

Qual o estrato social que em um tempo odeia ricos e teme pobres? Não se identifica com um nem se alia com lealdade a outro? Aliás, não possui qualquer lealdade, nem a seus próximos, semelhantes na condição medíocre. Com o arrefecimento das lutas entre as duas principais classes sociais do sistema, soergue-se um muro. Os próprios construtores de tal muralha idealizada pelo ódio intersticial, ao avistarem a ira abaixo de si, não tiveram coragem de descer, sabendo que teriam de escolher um dos lados. Ficaram em cima do muro, esgarrando os próprios regos. Eis que surge a classe média.

Poucos parecem se lembrar do que há pouco fora tão óbvio: o potencial totalitário da classe média. Se capitalistas e proletariados às vezes se dialogam melhor que os próprios entre si, talvez seja possível reconhecer que um sistema político que represente tais interesses teria inclinações por mais democráticas, já que o dialogo consegue se impor quando ambas partes são potencialmente satisfeitas. Isso fica claro quando se denota que os momentos de maior desenvolvimento capitalista são exatamente os de maior “liberdade”. Isso não significa que são os que as classes trabalhadoras estão em melhores condições, mas apenas em que estejam talvez mais silenciadas.

A classe média está na fronteira das classes sociais, é a classe “estática”, encastelada na sua vida provinciana. Sua essência está na busca incessante pela neutralidade, o que fica claro no clamor constante por culpados, responsáveis e carrascos. Mas, principalmente, no clamor de que estes sejam terceiros. O problema é que quando os conflitos sociais se arrefecem a tal ponto da muralha rachar, alguns relutantes pulam a um lado ou outro. A maioria, esquecida do tempo em que não havia castelos medíocres nos subúrbios, não conseguiria consumir tal ato covarde e temerário de se escolher uma luta e abandonar as características que enobrecem os setores médios da sociedade. Ao se entreolharem em cima de seu frágil muro, finalmente a classe média toma consciência de algo que talvez subverta sua própria condição existente: a de que é uma classe. Uma classe ameaçada pelos que estão tentando se destruir.

Quando o tal muro por fim rui, essa classe autoconsciente não se permitirá esmagar pelas lutas intestinas. Nem tampouco se dividirá pelos flancos de extremos sectarismos. Criará seu próprio sectarismo, unificador, beligerante e total. Através da síntese perversa dos dois lados em conjura, cria-se uma terceira via capaz de esmagar e conciliar todas outras. Surge o nazi-fascismo, ascende o socialismo real, ambos baseados na força da burocracia do colarinho branco, uniforme oficial da classe média. Afirma-se política e ideologicamente o Pântano-Montanha.

O século XX é a era do centro que apenas consegue se afirmar da maneira que mais contradiria seus princípios centrais: o extremismo totalitário. Lembremos apenas que as ditaduras militares da América Latina são triunfos da classe média.

  1. ariel, você escreve super bem! o ensaio é bom porque dá liberdade, e, ainda que as frases sejam longas, dá pra entender seu raciocínio com tranquilidade. só não é tranquilo o processo histórico, sobretudo no século xx. mas isso é outro assunto, né?

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