Ariel Pires de Almeida

A SOCIEDADE PÓS-INDUSTRIAL (IV)

In Uncategorized on 10/12/2009 at 05:33

Pensar o pós industrial pressupõe necessariamente pensar o que implica o industrial, o burguês, o capitalista. Seja como quiser chamar. O diabo tem muitos nomes, diriam. Implica o mercado nacional, a mão de obra nacional, a ideologia nacional, portanto, o Estado Nação. A questão da modernidade é a instituição do Estado nacional, embasado na representatividade – promovida pela classe média – e no liberalismo/centralismo – ancorado no conflito capital/trabalho. Por outro lado, é a consolidação do equilíbrio inter-nacional. O fato é a disposição das potências modernas perante as forças tradicionais que fazem o trabalho sujo. O centro se assalaria enquanto a periferia se escraviza.

O fato moderno, portanto é a competição, a liberdade de comércio, a consagração do equivalente geral, o padrão ouro. A disfunção moderna é na relação metrópole-colônia, na contradição produtores de matéria prima–produtores de manufaturados, na dissociação da renda da terra com a renda do trabalho. Por fim, na quebra da relação orgânica do homem com a natureza. Dava-se início os primeiros massivos êxodos rurais, promovidos pelos cercamentos de terra na Inglaterra dos quinhentos. O Estado pavimentou o caminho dos pobres camponeses às cidades onde, capturados como vadios, trabalhavam forçosamente nas novas “fábricas” do reino.

A realização humana em algum momento passou a ser a realização pura e simples do capital? O impulso de vida foi totalmente tresloucado para a acumulação?

Nesse sentido, a morte e seu impulso seriam o componente contraditório, pois dissocia com a sociedade, com o século e encontra o infinito milenar. A morte implica o reconhecimento da vida, da verdadeira vida, não a pretensa acumulativa.

Talvez caiba uma breve digressão que percorra o mundo da literatura de ficção científica, chegando no mais baixo do nobre cinema hollywoodiano…

O conto de Isaac Asimov, transformado em película em 1999 na estrela de Robin Willians, diz-se ser de bastante interesse, ao contrário do filme em si. Entretanto, não o li, possuindo apenas as informações pertinentes ao diretor Chris Columbus. O homem bicentenário trata a história de um robô com sentimentos cujo maior desejo seria de ser humano. Qual um boneco de madeira que busca ser menino de verdade, a máquina passa por provações de auto reconhecimento e conhecimento da humanidade para se transfigurar de fato em carne e osso.

Mas o que implica a um robô tornar-se humano?

A razão abstrata, matemática todos robôs da época já possuem. Os sentimentos o tornam único dentre seus pares e estimulam sua busca pela humanidade. A chave é o amor por sua pequena mestra, assim como o amor pela neta de Wendy em outra adaptação fílmica de clássicos faz com que Peter Pan – também Robin Wilians, por acaso – decida abandonar a infância. No caso, o que o robô abandona? Se possui razão e sentimentos, o que o diferencia de um ser humano que não o definiria como animal? Nada. O que falta a esse pobre e depressivo andróide é exatamente o que une a todos os seres vivos e que muito provavelmente qualquer pessoa abriria mão sem pensar em conseqüências: a morte.

Se todos sabem exatamente o que se perde com a morte, a vida, poucos param pra pensar no que se ganha. A morte é o encontro comum com o que fora vivo. Indiferenciado. Poucas coisas na vida são tão indiferenciáveis quanto só o seu fim pode ser.

Perante um tribunal, ao defender sua humanidade depois de adquirida a mortalidade, o ex-robô afirma serem todos em sua época parte robotizados. Não teria o próprio juiz um fígado desenvolvido pelo próprio protagonista para se humanizar? A questão é que o juiz e outros seres humanos possuíam tais órgãos-máquinas dentro de seus corpos para prolongar a vida. O robô desenvolveu-os para ele mesmo com o exato objetivo oposto. A humanidade se robotiza com o intuito da imortalização e, portanto da completa diferenciação com tudo mais vivo. O robô, ao contrário, busca se indiferenciar como todos na morte.

Talvez as tais máquinas que dominam os homens naquele Matrix (também de 1999) sejam apenas o ser humano imortalizado sugando energia daquele frasco mortal, podre e indiferenciado que é nosso corpo. A questão da vida é energia. No caso, a respiração. Os primeiros passos para o homem bicentenário tornar-se animal fora o desenvolvimento do aparelho respiratório substituindo a velha tomada que renovava suas forças com eletricidade comum. Não seria ótimo para nós hoje se pudéssemos viver a base de hidrelétricas e não comida e oxigênio? Ou mesmo petróleo ou energia solar? As máquinas de Matrix tentaram todos, mas por fim descobriram que a melhor fonte de energia só viria mesmo do corpo animal, um aparelho complexo e completo desenvolvido para a energia.

Talvez as máquinas estivessem mesmo num estágio superior de inteligência ao que vivemos hoje.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: