Ariel Pires de Almeida

REFORMA E REVOLUÇÃO (II)

In Uncategorized on 10/12/2009 at 00:58

Todavia, esta classificação social, por mais que justa, não chega a ser satisfatória. Se as classes capitalista e operária são dialogantes e a média é apenas em casos extremos beligerante ou consciente, então diríamos que o Capital reina em paz por quase todo seu reinado, com exceção aos breves ciclos descendentes de superprodução. Não seria verdade. Então, qual é a classe deveras desfavorecida, que em momento algum se favoreceu e desfavoreceu-se mais e mais ao longo da consolidação e expansão do sistema capitalista industrial, urbano, auto-motor?

As classes rurais, claro. O camponês é o único produtor que não depende de seu trabalho para produção de valor. A terra possui sua própria renda, desenvolvendo decerto uma “mais-valia” natural. A tecnologia apenas, sem a necessidade do trabalho humano, consegue potencializar tal renda com a conseqüência de um maior e mais devastador êxodo rural que separaria definitivamente o homem de sua mãe Terra, trazendo-o ao lar de seu pai adotivo Concreto.

É a e da classe desfavorecida que se desenvolve a Revolução. Nesse sentido, qual o caminho considerado para um verdadeiro processo revolucionário nos campos nacionais? A reforma agrária? De fato, o maior movimento popular nacional ou talvez mesmo internacional é o MST. Porém, nessa própria constatação há uma contradição. Um movimento revolucionário triunfaria por um processo reformador? Afinal, reforma das estruturas não envolve o poder de controle dessas mesmas estruturas?

Daí que chegamos num ponto de interesse. A reforma agrária por um lado é uma medida revolucionária por valorizar o não produtor direto de mais-valia. Essa valorização retrai o êxodo rural diminuindo as massas do exército de operários a serviço do Capital. Por outro, é uma medida reformista no sentido em que cria o pequeno proprietário rural, valorizando a produção individualizada e competitiva na semelhança das propriedades familiares norte-americanas. É uma luta tanto camponesa – por contrapor ao latifúndio tradicional – quanto burguesa – ao instaurar em definitivo o regime de mercado na floresta de selva e portanto também contrapor ao coronelato latifundiário.

A questão é que o poder se legitima por sua base. A transformação da estrutura do poder se daria, portanto apenas por uma movimentação nessa base. O que seria porquanto um movimento de base? É um trabalho que realiza a contradição, que movimenta o processo dialético e caminha assim necessariamente à transformação básica. O método deste trabalho é o confronto. Educação-Consciência, Ética-Moral, Produção-Realização. De um lado a ética protestante trabalhadora, produtiva e nacionalista; de outro, a moral católica universal, contemplativa, distributiva e justa. A graça concedida em vida e a redenção obtida na morte. Seria por fim a velha oposição impulso de vida/morte. Conservação e dissociação, mas dissociação que se baseia no encontro que por isso comunga. A comunhão que é a morte.

Se o método é o confronto, o objeto é a luta de classes. Esta confirma contraditoriamente a classe revolucionária, o campesinato, que visa a mudança, porém não o poder – lembremos do México naquela década de 1910. Entretanto, se a revolução no campo se daria contraditoriamente pela reforma agrária, qual seria o papel desse revolucionário camponês reformado? Lembremos apenas dos resultados políticos da aclamada reforma agrária na França revolucionária. Desenvolve-se uma classe social essencialmente mesquinha e conservadora que viria a ser a base política de ambos impérios napoleônicos.

Voltando à questão da consciência, temática bastante recorrente. A consciência é secular, constitui-se na luta de classes. Subtraída da consciência a educação que se repercuti na ética – protestante, claro; temos como resultado a inconsciência apática, moralista, milenar, católica. O Estado-Nação que provem do contrato social promovido pela luta de classes por fim representa a quem? A inconsciência política moralista e rural? O operário morto de fome? O burguês que de tudo tem? Ou a classe que a tudo teme? Que não sabe o que é organização que não seja a hierárquica, autoritária e burocrática de um escritório? O contrato social seria ideologicamente um acordo entre o terceiro e o primeiro e segundo Estados. Revela-se de fato um pacto intra-estamental, entre a classe média e a burguesa. Entre os girondinos e o pântano contra os jacobinos.

E o campônio? Espécie em extinção. O papel do Estado não é preservá-los, mas ajudar na aniquilação. Isso nos princípios.

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