Ariel Pires de Almeida

SUJEITO E INDÍVIDUO (V)

In Uncategorized on 10/12/2009 at 19:38

Voltemos para o universo da realidade. Esqueçamos por um momento as interpretações vãs, fúteis e pertinentes do que vivemos hoje pela projeção ao futuro. Voltemos ao mundo moderno, contemporâneo, pós-contemporâneo. Por um último momento. Depois podemos religar as televisões, checar as queimaduras no feijão, esquecer tudo e ir pra cama, mas não pra dormir. Tenho que de alguma forma amarrar todos esses pensamentos tortos de forma que pareçam ao menos os simbólicos feixes amarrados de logotipos fascistas. Que essas reflexões sejam sintetizadas, significadas mesmo que à força, autoritariamente. Senão, terão vocês perdido a novela à toa, o jantar, o tesão. À toa não. Vou dar um sentido pra isso tudo. Mínimo que posso fazer.

Talvez uma forma digna de fazê-lo seria unindo os últimos pontos centrais dos dois tópicos anteriores. A imortalidade e a classe média, isso envolto na questão política que é o universo que particularizaria essas questões no mundo pratico. Poderíamos pensar numa diferenciação da forma que o ser humano se utilizaria para se imortalizar nos termos modernos e tradicionais. Ambos envolvem a techné, mas de forma bastante diversa.

Diferenciaríamos talvez entre sujeitos e indivíduos, subjetivação e individualização. Como um sujeito se imortaliza perante sua própria mortalidade e como, ao contrário, o faria um indivíduo? Diria que a primeira é uma questão técnica. São técnicas de imortalização como a escrita, a tradição oral, de trabalho, etc. A subjetividade é uma realização coletiva, implica a valorização ou mesmo desvalorização do Outro. Realiza-se no princípio de justiça, presa à oposição orgulho/humildade que se manifesta plenamente na honra. O sujeito não é parte da sociedade, ele é a sociedade e sua morte é continuidade, não fim.

Para o indivíduo, sua imortalidade se dá em quesitos tecnológicos, cujo extremo é a tal digressão do homem que se imortaliza abandonando seu atributo mais básico de ser humano e tornando-se de fato robô. Isso porque a individualização é uma realização capitalista que implica a objetivação do Outro e se realiza no princípio do consumo como base da troca social. Quando o indivíduo morre, não há continuidade, pois não há real inserção social num mundo de indivíduos. A continuidade, a imortalidade está apenas para o Capital.

Então, poderíamos dizer que o sujeito se realiza pela troca virulenta inter-subjetiva, enquanto o indivíduo se impõe através da violência mercadológica. Isso implica uma forma específica de cada um se realizar politicamente.

Para o sujeito, a força política assegura que conflitos não desemboquem em caos social. É o conceito antropológico de faida, associado intimamente à noção de vendeta ou vingança. Esta é a chave da resolução de conflitos dentro da sociedade. A vingança que se extrapola em possíveis confrontos civis é refreada pelo poder público. Enquanto, para o indivíduo, a força pública é a única força que de fato existe. A vida se institucionaliza em todos seus níveis e o poder público passa a ser o assentuador do caos social. O indivíduo se assenta no poder público, depende e cobra, pois é ele que consagra publicamente seu micropoder privado.

Voltando à nossa questão inicial, talvez o confronto dialético seja realmente o de sujeitos com indivíduos. E talvez certas classes sociais tenham maior número de sujeitos que indivíduos e vice-e-versa. Se a democracia é a forma política ideal para o diálogo dentre sujeitos, o totalitarismo o seria para indivíduos. Isso talvez conclua que as classes trabalhadora e capitalista são mais subjetivadas e a média individualizada.

Mas não nos congratulemos ou nos deprimamos antes de lembrar que tanto o poder do povo quanto a força do um contam com os mesmos aparatos coercitivos violentos. Não se desprende a autoridade e o autoritário de nenhuma das formas que por aqui conhecemos de reger as questões globais. Não sei se poderia dizer se isso é bom ou ruim. Se fizesse isso feriria meu primeiro princípio que elucidei no primeiro tópico desse meu monólogo contigo, caro leitor. Não há o que julgar. A violência é o que a violência faz. O que existe é o poder de manipulá-la.

A vida é um vir-a-ser. A questão não é se os fins justificam os meios. Os fins são os meios…

(10/12/09)

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