Ariel Pires de Almeida

A guerra e a luta (II)

In Uncategorized on 28/06/2010 at 05:27

Comecemos pelo ponto de chegada, o triunfo revolucionário e pacifista de 1949 e 47, partida para tantos e alguns tão conhecidos movimentos ulteriores. Para isso, voltemos para seu processo mais recente no momento ainda bastante sentido em suas histórias. A forma como desenvolveram esses dois países, no desenrolar da Segunda Guerra Mundial, sua relação com as potências imperialistas, em particular o Japão, é exemplar do conteúdo diferenciado que cada qual dá e dará ao processo emancipatório. Se, para o primeiro, foi a emancipação camponesa-proletária revolucionária, para o segundo, será o acomodamento pacífico das partes beligerantes. Essa questão clarifica de modo latente as conclusões históricas de suas diferenças intrínsecas.

Barrington Moore Jr expõe quatro caminhos de desenvolvimento econômico e político produzidas pelos séculos XIX e XX em vias da modernidade[i]. O primeiro, herdado em verdade de fins do XVIII, é o clássico democático-burguês produzido por uma revolução da classe economicamente emancipada, a burguesia. O segundo, exemplar em Alemanha e Japão, implica uma situação fraca da burguesia, mas que teve frutos capitalistas que, entretanto, desembocaram no fascismo dos anos 30. O terceiro caminho é precisamente o representado por China e Rússia, o caminho do comunismo, onde as burocracias agrárias inibiram os impulsos industriais e comerciais. Suas classes urbanas eram fracas e o aglomerado camponês latente. Esse fato produziu o campesinato como a principal força revolucionária que destituiu a ordem antiga e lançou seus países aos tempos modernos sob direção do Partido. O quarto caminho é o indiano. Resultado do seu singular processo foi o fraco impulso modernizador, mas que produziu as bases de uma democracia no estilo ocidental com a existência de um parlamento que seria forçoso considerar de fachada.

A diferença dos dois processos pode ser pautada em duas questões: a realidade conjuntural dos países em meio ao conflito mundial e a conclusão que tentarão dar ao problema das classes empobrecidas e desagregadas com o ocaso do imperialismo. A guerra fora sentida por cada uma de forma bastante diversa. A China sentiu de perto o peso das amarras coloniais num momento em que já parecia com caminho definido para o processo revolucionário. A revolução de Xin Hai em 1911, o Movimento 4 de maio, a onda de conflitos nas cidades a partir de 25, e, finalmente, o racha do PCC com o Kuomintang de Chaing Kai-Shek em 27 que culminou em alguns anos na luta aberta entre os dois e na longa marcha de Mao Tse-Tung. Em meio a esse processo, o Japão passou à ofensiva no território chinês com suas forças imperiais. Com o fim da Primeira Guerra, tomou posse das zonas de influência e cidades sob autoridade alemã e, ao longo da década de 30, infiltrou-se em direção à Machúria no norte do país. Aquele fato, por acaso, foi o que deslanchou a fúria de estudantes naquele quatro de maio de 1918[ii].

A questão é que, desde princípio, a China vivia sob domínio de muitas nações imperialistas e o fato de sentir, no momento de enfraquecimento destas, o peso imperial japonês faz com que sua população ofereça uma resposta mais ousada e violenta ao julgo colonial. O desfecho foi o levante camponês, liderado pelo Partido Comunista, contra o próprio Capital. A forma que Mao irá revelar para tal luta que é interessante. Fugindo da ortodoxia marxista exigida pelo Commintern e exemplificada no modelo soviético, a China desenvolveu uma estratégia que fundia uma atitude humanista que pregava a especificação da teoria para o caso chinês e a classe camponesa como sujeito principal da trama revolucionária[iii].

A Índia, ao longo do início do século XX e no período entreguerras, também desenvolveu satisfatoriamente seu processo de emancipação. Gandhi e Nehru, as duas principais personalidades dessa época, já eram figuras importantes com bases se consolidando e cortejando alianças para a independência. É interessante que, ao contrário da China, que fora usada e abusada ao longo das turbulências de 30 e 40, a Índia buscou se utilizar em proveito de tal momento. Traçou uma possível aliança com o eixo contra a Inglaterra, ao mesmo tempo em que sugeriu um apoio militar às forças aliadas. Caminho parecido trilhou a Palestina nesse interim do outro lado do continente. O desfecho de ambos seria parecido. Tanto num quanto noutro foram divididos seus territórios, muçulmanos e hindus, num caso, muçulmanos e judeus, noutro. Outra coincidência é a divisão interna do território islã: de um lado, Cisjordânia e Gaza, de outro, Paquistão Ocidental e Oriental – futura Bangladesh. O resultado também se equivalerá, a guerra.   

A ideologia que prevaleceu no processo foi o gandhismo. Para pensar tal filosofia, temos de analisar seus dois conceitos centrais, satyagraha e ahimsa. O primeiro pode ser traduzido como o “esforço para a verdade” e o segundo como “não-violência”. A junção de ambos implica que a busca da verdade se faz pelo convencimento e a objetivação para a mudança pelo amor e não pela violência. Os métodos incluiam a desobediência civil, o auto-governo (swaraji) e a auto-suficiência (swadeshi). Implicava o boicote a produtos industriais e tecidos ingleses e o fabrico das próprias roupas nas maneiras tradicionais do artesanato. Gandhi exaltava a aldeia em lugar da cidade e o auto sofrimento em posição da violência. Muito famoso é seu suplício de fome numa greve duradoura pela liberdade de seu país.

Como tratarão com as classes desfavorecidas merece uma pequena nota. Mao reorganizou a estrutura fundiária com a implantação da reforma agrária, a destituição da aristocracia rural e os planos quinquenais e do Grande Salto com o objetivo de fomentar a economia, o que implicavam também certa forma de continuidade do processo de enfraquecimento e desaparecimento das classes artesanais. Importa ressaltar que esse elemento artesanal distante das grades cidades manteve possível a estratégia militar dos comunistas chineses, pois as bases revolucionárias tornavam-se economicamente viáveis. Na Índia, o caso foi mais acomodado a seu modelo de emancipação conciliatório com as forças imperiais. Chesnaux chama de “gandhismo econômico” essa mistura de conservadorismo econômico e patriotismo político[iv] que implicou entre outras coisas na tentativa de preservar ou restabelecer o artesanato tradicional. As mudanças fundiárias não foram tão cabíveis nesse processo.

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