Ariel Pires de Almeida

India e China: as duas faces da moeda (I)

In Uncategorized on 28/06/2010 at 05:20

Semelhanças e dissimetrias

A Índia e a China são países asiáticos exemplares. São dos mais populosos e tradicionais, além de caracterizarem uma antiga relação com seus vizinhos ocidentais africanos e europeus, seja direta ou indiretamente. Por serem os de maior população, não é de se impressionar que constituam até hoje os com maior número de camponeses num mundo em que o elemento urbano há pouco ultrapassou o rural. São também atualmente, um e outro, centros de tecnologia de ponta e produção massificada para o mercado externo.

Os métodos de contenção e utilização dessa enorme massa populacional se materializam em diversos pontos e quesitos. De um lado, o hinduísmo, de outro, o confucionismo serviram por milênios como formas religiosas de relegar a cada qual seu respectivo lugar na sociedade, hierarquizando-o segundo critérios qualitativos em que uma ocupação ou posição é valorizada em detrimento de outra. John A. Hall, ao analisar as formas da relação sociedade/estado, acaba por concluir por certa similaridade em termos de fraqueza do sistema político tanto indiano quanto chinês. Para ele, os impérios, dentre os quais destaca-se o chinês, não penetravam profundamente a ordem social a ponto de modificá-la ou mobilizá-la e um estado apenas seria considerado forte se tiver essa capacidade de penetração e organização social[i]. Entretanto, se para o primeiro caso, a fraqueza é marcada na ausência de um forte poder estatal, no segundo, é, ao contrário, por sua excessiva presença.

O estado chinês criou as bases para a principal diferenciação e categorização social que é o mandarinato através de um sistema de exames que encorajou os intelectuais a servirem como burocratas e não sacerdotes como no caso de outras civilizações importantes. Entretanto, a fraqueza de seu poder era clara em sua inabilidade em controlar as classes proprietárias de terras, além de ser limitado sobre a economia. O estado tendia a perder o controle sobre a sociedade. O poder local aumentava suas propriedades e evitava a cobrança de impostos. Ameaçado internamente por pressões camponesas por mais terras – consequência do aumento populacional – e externamente por nômades nas fronteiras, o governo tendia à militarização que exigia aumento tributário que por sua vez tinha dificuldade de se concretizar pela oposição da nobreza. Enquanto isso, para a grande maioria dos assuntos poderiam ser bloqueadas as iniciativas imperiais pela classe intelectual-pequena nobreza.

A elite chinesa, apesar de não possuir uma extensão de poder que abarcasse todos os níveis da sociedade, tinha a força de bloquear iniciativas e movimentos que tiveram como resultado o minguamento de relações capitalistas que desabrochavam de maneira intensa na China medieval. O objetivo desse mandarinato era evitar ligações que diminuissem seu poder e influência. Nesse sentido, o estado chinês não fora incapaz de fomentar – como fizera posteriormente o estado orgânico europeu – serviços decisivos para o capitalismo. A ideologia desse estado “refletia” a sociedade e de certa forma não possuia essa força auto-criativa da respectiva ideologia ocidental cristã.

A fragmentação política fora necessária para criar essas circunstâncias, na Europa, entretanto a análise do caso indiano comprova que não é a única condição necessária para seu desenvolvimento[ii]. A invasão indo-ariana fora totalmente díspare se comparada com seus correspondentes islâmicos ou germânicos. Aqueles não eram nem superiores, tampouco inferiores à civilização conquistada, portanto não assimilaram – como no caso germânico – nem foram assimilados – como no árabe – completamente. O resultado foi o complexo e rígido sistema de castas que combina especialização de ocupação, hierarquia social através do controle do casamento e leis sociais e de alimentação para que os puros permanecessem puros. A ideologia que esse sistema suscitou repercutiu numa divisão secular e religiosa incorporada nos Brahmanas, ao contrário da China que fundiu religião e estado no madarinato[iii].

O governo imperial só seria instituído com os nandas e maurianos que introduziriam a idéia de Dhama que corresponde ao apelo à responsabilidade e serviço social prestado ao estado do confucionismo chinês. Entretanto, o budismo não conseguiu concretizar de fato um poder imperial centralizador e estável, dentre outros motivos, por não ter regulamentado uma necessidade social básica como o casamento. Proveio disso um refortalecimento do poder dos brâhmanes através do neobramanismo que rearranja os deuses de uma forma monoteísta. O segredo dessa religião é sua tolerância à diferença e seu enorme potencial organizador das relações sociais. Essa ordem social permitiu a expansão para novas terras e difundiu a paz, entretanto impediu a instalação de um poder estatal forte e coeso ou que abrangesse as fronteiras da Índia atual. O que mais se aproximou de tal façanha foi o Mogul no século XVII que não por acaso era islâmico.

A casta dos brahmanes freou o impulso capitalista na Índia por seu caráter essencialmente hierárquico que não permitia uma divisão flexível do trabalho, além de não divulgar suas importantes descobertas no campo da técnica, na matemática e astronomia. Essa organização criou políticas instáveis e predatórias que se somaram à instabilidade da fronteira a noroeste, entrada para inúmeras invasões[iv]. Foram portanto completamente incapazes de criar uma infraestrutura social. 

Essas formas políticas em casos tão díspares propõem no entanto uma similaridade em seus fins e, sobretudo, meios. A mão de obra, a forma de exploração e os métodos sociais de manutenção desta exploração acabam por se encontrar tanto em uma como noutra. O que as une para logo afastá-las novamente é também o interesseiro europeu que a partir do século XIX, com o desenvolvimento da maquinofatura em larga escala, pela primeira vez sobrepõe-se econômica e militarmente às tradiconais forças do oriente, Índia e China. As incursões em ambas tiveram um desfecho comum em tempo, nos meados do mesmo século. A primeira, a partir da Revolta da aristocracia indiana, privadas de seu poder pelas anexações da Cia. das Índias Orientais britânica, conhecida como Cipaios[v]. E a segunda, mergulhada em guerra e dilacerada por entre as potências européias, fora forçada a tratados desiguais e abertura de portos e zonas de influência após a Guerra do Ópio.

Importante pensar no primeiro fato aqui elencado, a predominância e tamanho do campesinato tanto indiano quanto chinês, somado a este último esboçado, questão primeira ou talvez última deste século XIX desfechado apenas talvez em meados do XX. O avanço europeu na Ásia, África e Américas tomou forma então do avanço das forças capitalistas, ávidas por mercados para escoar e matérias-primas para explorar. A modernidade que implica a modernização das práticas sociais, incentivo à iniciativa privada e desenvolvimeto de uma indústria nacional ancourada em um proletariado e um mercado nacional não foram em um ou outro modo plenamente colocados no horizonte respectivo de China e Índia. O capitalismo moderno na Ásia oriental progrediu sob efeito exógeno, implicando por exemplo que setores como a indústria pesada não progrediriam no mesmo ritmo que ferrovias, minas, navegação a vapor, o grande comércio dos portos e, claro, as plantações. Nesse sentido, pensar seu desenvolvimento econômico é pensar em uma certa justaposição de duas realidades econômicas: a moderna indústria, concentrada nas cidades, portos e zonas de influência e a economia tradicional de onde tira sustento a maior parte da população. É o setor econômico representado pelos pequenos camponeses, artesãos e comerciantes e por todas profissões itinerantes. É o setor “que assegura a imensa maioria da produção agrícola, em particular a produção alimentar destinada ao mercado interno”[vi].

        Esse campesinato em sua maioria é a grande força econômica, política e até militar de ambos países. A forma como serão utilizados nos respectivos processos de independência do julgo europeu e os métodos empregados em vias da modernidade é o que diferenciarão um e outro no século XX. Sua situação, no entanto, é comum em ambos. O fenômeno do endividamento rural, a questão do landlordismo, um sistema social que mais se assemelha à dependência feudal contrasta com o desenvolvimento da grande agricultura para a exportação. A dissolução das comunidades das vilas, a tensão contínua e crescente entre proprietários rurais e camponeses pobres[vii]. Essas são as marcas de ambos países na alvorada do século XX. Pensar o decurso disso para cada um é refletir sobre suas diferenças e semelhanças que resultarão em duas ideologias das mais difundidas no mundo globalizado, o gandhismo e o maoísmo.


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