Ariel Pires de Almeida

A CONDIÇÃO PÓS MODERNA NA VISÃO DE SOFIA COPOLA (I)

In Uncategorized on 12/07/2010 at 20:42

“I fuck everything that moves!”

Veludo Azul, David Linch

 

 

MARIA ANTONIETA, SOFIA COPPOLA

A primeira e última reflexão que devemos abordar numa análise que frisa uma película como documento fílmico diz respeito a seu duplo caráter, denominador comum da essência da obra fílmica. O audio se funde em visual, processo teórico tecnológico cujo triunfo remete aos anos 30 daquele Grande Ditador do britânico Charles Chaplin. A vanguarda, entretanto ainda se enclausura no velho mundo da arte judaico-bolchevique. Os EUA importaram o modelo de vanguarda do cinema europeu. Como toda incorporação norte americana, contudo, fora naturalmente mercadológica e anti natural, mas realizada com precisa dignificação aos costumes suburbanos dos imigrantes americanizados. Poderíamos crer que a importação já remete à conquista do oeste. Em 1860, afirmaria David Harvey, a arte moderna centra-se nos clubes do coração de Illinois, centro-norte estadunidense. Assim como a fronteira licorosa com o Canadá beberrão da rainha nos anos de 1920.

Em 2010, o epicentro artístico do cinema de vanguarda permanece europeu. Lars Von Trier talvez seja um poderoso símbolo, ao lado de Bjork, Radiohead, Smiths e etc. Importaram como a tudo que importa. E Sofia Copola, filha de um dos precursores do realismo cinematográfico nova iorquino ao lado de Martin Scorcese e talvez Spielberg – na vertente hollywoodiana -, reviveu a complexidade reflexiva do pensamento americano e refundiu com a sensibilidade que apenas uma liberdade liberal extrema poderia resultar. Encontros e desencontros é seu primeiro trabalho, Maria Antonieta, o último

Pensemos neste…

 

 

 

PERSONALIDADES E TRANSPARÊNCIAS

Todo filme hollywoodiano segue a seguinte estrutura: boy meets girl/boy, boy gets girl/boy, boy loses girl/boy and gets her/him back. Essa é a formula farsante, a trágica é naturalmete diferente nos fins, apesar de não necessariamente nos meios ou instrumentos. A diferença de Megera domada para Romeu e Julieta. 10 coisas que odeio em você e Rei Lear.

            Pensar a estrutura com vias a desvelar sua formalidade é analisar o sistema de carateres que são introduzidos na trama catalisada em música e linguagem poética. Toda estória tem um herói, uma heroína, coadjuvantes, figurinistas, argumentadores, referências e moral. As regras são claras. O herói sempre sobrepõe e acaba por cima na relação sexual com a heroína. Indelevelmente. Mesmo esta sendo masculinizada. A mulher é o depositário do prazer e da reprodução. O homem é a bomba pulsante, a gelatina fálica dos primeiros 30 minutos de filme. Representa, de um lado, a moleza do delfim contraposta à virilidade lasciviosa do rei – diferença exposta em duas gerações de convívio em Versalhes. O rei conhece as ruas. Trouxe uma meretriz dos bairros sujos de Paris. Não é o caso do pobre Luis Augusto, treinado para caçar e jogar, atividades solitárias em sociedade e legitimamente viris.

            O filme, como todo que busca se apresentar de um ponto de vista feminino, representa a vontade incurável da heroína no encontro de seu príncipe de arma-dura reluzente. Seu Cavalo de fogo do desenho infantil, uma representação fálica que pronuncia a realeza que porvirá em futuro. A narrativa de Copola se assemelha a um jogo burguês de “pêra, uva, maçã, salada mista”, em que a delfina da França procura quem a fez rainha, quem a tocou o coração e quem poderia – em oposição – desvirtuar e degenerar seu caminho virtuoso.

            Poderíamos desvirá-lo por três distintas partes que preconizam uma forma ou outra de atitude da doce Maria, que mais parece um lindo e apetitoso bolo. Cada uma corresponderia a um nível de chegada da heroína ou de preferência de herói em relação ao Conceito hegeliano. Analisemos cada um. Primeiro, Antonietta, a austríaca americanizada que mais se assemelha a Paris Hiton, ícone popular pós 11 de setembro.

            Todos no mundo de Versalhes perdem sua humanidade. Cada personagem que rodeia a delfina representa um selo dessa falta inevitável de um mundo teatralizado. Todos se apresentam como aquele cavalo de fogo da espiã alemã. Primeiro, o delfim. Filho do momento mais profundo do fechamento social da corte francesa, é Versalhes. É recatado, dessexualizado e elegante. É o marido, o mais preferencial para o papel de príncipe encantado. Mas não é. Talvez o rei, operador da aliança matrimonial com a Áustria. Representa a degeneração e devassidão daquela geração que conhece os submundos e origens do espaço aristocrático real. Sabe seus meandros e conhece os fins, meios e público. Este obvimente é a nobreza francesa.

            Mas, voltemos. Porventura o rei fosse o tal príncipe, Maria precisa confrontar-se com Lady Du Barry. Discorramos sobre ela…a meretriz provinda de todas camas de Paris. Ela é o sistema absolutista encarnado e esculpido na figura serpentina de mulher. A prostituta não representa o operário feminino e seu corpo, a força de trabalho. Pelo contrário, ela possui meios de produção como aquela Luciana Gimenez que reprouziu um filho de Mick Jagger e sua ascenção televisiva, a superpop. Du Barry comprou seu título. Em referência a passagem do Antigo Testamento, o rei promove um casamento com linhagem de estirpe e qual David, manda o cônjuge a terras distantes, assumindo-a na corte.

            Finalmente, temos o conde sueco, outro possível falo especial para a rainha. Este personagem é apresentado em cena muito interessante, de diferente construção. Metaforizado num jogo de cartas, a heroína é obrigada a perguntar ao Outro, quem sou eu?.  Se a busca do reconhecimento do cavalo de fogo com o rei ou delfim era uma busca dentro do patriciado, do mundo dos iguais; com o sueco se transfigura na linguagem dos espelhos. A heroína procura o seu herói no estrangeiro, comparado a Napoleão, alienígena que conquistou a Europa arstocrática decadente. É o segundo passo do Espírito se auto reconhecendo. O primeiro – estágio de consciência – e segundo – estágio de autoconsciência – são os momentos da dialética hegeliana. A consciência se exprime no trabalho; a auto, no consumo. A reprodução, nesse sentido, só poderia vir como a solução sintética do impasse aristocrático. O paradoxo do barroco. O rococó seria apenas a resposta monótona e sadia dessa nobreza que se agarra nos próprios saiotes. A conclusão, revolução burguesa.

            Se pensarmos no advento do Titanic como comparativo ficamos com um ensaio deveras interessante. A fortuna acolheu os que abraçaram a morte da belle epoque naquele frio 1912. Os que ousaram lutar, morreram em guerra, externa ou pessoal. O vilão do filme de Cameron não por nada baleia a própria cabeça – ato masturbatório – em 1929. A masturbação é a resposta animal à não concretização da consumação carnal. No caso de Maria Antonietta são as compras. Deprimidas, as patricinhas de Beverly Hills buscam o shopping em satisfação a suas falsas esperanças perdidas. Os homens, ao bordel. A narrativa de Copola é reverenciada com picos de alucinação figurinística da autora, lembrado-nos de comerciais das famosas all-star e Louis Vitton. O shopping é a igreja da pós modernidade.

 

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