Ariel Pires de Almeida

ARQUITETURA DA MEDICINA: a estética da pureza

In Uncategorized on 12/07/2010 at 20:52

“para se entender o Nazismo tem-se que conhecer Richard Wagner”

Adolf Hitler

ESTÉTICA

A estrutura do filme, Arquitetura da destruição, segue uma lógica cronológica pautada pelas Exposições de Arte produzidas por Hitler ao longo do Reich. A primeira é introdutória e desligada cronologicamente das outras, a de 1939, seis semanas do início da Guerra. Nesta é colocada a importância do artista no Terceiro Reich, por este ser de um ideal contrário ao racionalismo e, por isso, mais viavelmente expressado na arte. Bastante comum é a presença de artistas frustrados nos altos comandos do Partido como Goebbels, Rosemberg e o próprio Hitler que fora um pintor recusado na Academia de Viena com pretenções de arquiteto. Seus fascínios eram três: Linz, sua cidade natal; a Antiguidade e Wagner, o artista-político tal qual ele. E havia herdado suas noções de arte para a nova civilização, assim como seu anti-semitismo, culto ao legado nórdico e o mito do sangue puro.

Cada Comício nazista era uma obra de arte, verdadeira ópera. Cada Exibição é uma propaganda e uma justificação para as pretenções e ações desumanas do Nacional Socialismo. E cada Propaganda é fruto do gênio artístico de Hitler, desde a insígnia do Partido, o estandarte, à organização dos eventos e seus espaços. É o cenógrafo, diretor e ator principal de sua ópera. O coadjuvante é apenas um, o “Corpo Alemão”, puro ariano.

PUREZA

A partir do decorrer lógico e metódico da questão da arte degenerada – desenvolvida na Exposição de 33 que é acompanhada de uma exposição de artistas modernistas que estariam fadados à fogueira e ao esquecimento -, chega-se a um ponto único: a comparação, que aparenta inevitável, dos quadros modernistas com figuras deformadas da humanidade. Nesse sentido, desloca-se a preocupação de estigmatização da arte bolchevique-judaica para a aberta e justificada perseguição aos degenerados. Diz-se que, enquanto o puro trabalhador alemão vive em guetos ou favelas, são construídos verdadeiros palácios para internações do lixo humano. Palacetes mal notados pelos loucos infelizes. Depois de exibir sua amostra sobre a saúde da vida, a lógica nazista abre espaço para duas conclusões: a necessidade de exterminar as pestes que contaminam o Corpo alemão e a importância do médico para essa função. Em 14 de julho de 1933 é aprovada a esterilização dos doentes. Em 35, o extermínio, no primeiro teste para o que seriam as câmaras de gás. Apenas um médico é capacitado a abrir a válvula do Zicklon B, proporcionando uma morte limpa, higiênica e, portanto, humana. Enquanto isso, a propaganda nazista clama: CONFIE EM SEU MÉDICO!

Talvez caiba aqui uma breve digressão.

Hitler tinha verdadeiro fascínio pela antiguidade. Seu norte eram as civilizações ateniense, espartana e romana. A primeira por seu ideal estético – detalhe é que o Fuhrer proibiu o bombardeamento de Atenas. A segunda pela pureza e a terceira pelo caráter expansionista. Interessante é ressaltar o paradoxo que inclui essa estranha síntese. Afinal, é possível a pureza com a expansão? É possível um ideal de estética não miscigenada pelo domínio de outros povos? É possível conquistar o outro sem considerá-lo ao menos exótico ao invés de indigno para a vida?

Pensar essas questões é o mesmo que se questionar se o Holocausto fora fruto de barbarismos ou de extrema racionalidade. A ideia é predominantemente dialética.

Então, pensemos nessa discussão, por um momento.

O processo que desencadeou o extermínio foi longo e penoso. Em 1940, auge da expansão nazista na frente ocidental, os judeus ainda eram colocados em guetos ou campos de trabalho forçado. As mortes eram de velhos, crianças e inválidos. Quando, em 42, os norteamericanos entram na guerra e Hitler, ao mesmo tempo, embarca na fracassada aventura napoleônica russa, a “solução final” para a questão judaica finalmente esboça seu último e terrível desenvolvimento. Os campos de extermínio, dentre eles Auschwitz e Treblinka, revelam o conteúdo final da lógica nacional socialista. Se o fim último é a beleza e o meio único a pureza, a resposta definitiva só poderia ser o extermínio.

Os requintes cruéis e sádicos não são necessários de explanação. Basta ver outro grande filme, de Resnais, que ilustra brilhantemente esses pormenores. A questão é que jamais fora visto algo parecido. Uma máquina estatal burocrática de alta tecnologia à serviço do extermínio étnico.

Tem-se que pensar o que isso implica. Trens, horários, cartas, escritórios, gravatas, médicos e arquitetos. As fichas perfuradas desenvolvidas pela americana IBM serviram para catalogar de modo único a massa de judeus existente no império alemão. Um total de onze milhões. O conseguido: seis. O profissional encarregado, o médico. O local, longe dos centros urbanos, pois as experiências do T4 com doentes em 1933 revelaram certos problemas. A fumaça dos crematórios infestava Berlim e pelas ruas era possível notar fios de cabelo parcialmente queimados.

O campo de testes: a Polônia ocupada.

Levaram os judeus, portanto, em carga como animais. A viagem em si já era um matadouro. Chegando à noite, sem saber o que esperar e sufocados com o odor da morte, as ovelhas seguiam para o abate. Seus corpos eram aproveitados ao máximo para tecidos, sabonetes e experiências. A medicina alemã era a mais avançada. Desenvolveu-se uma técnica limpa e humana para o genocídio, a câmara de gás. Concluiam o processo de desumanização dos judeus fazendo com que os próprios trabalhassem como “carcereiros” de seus irmãos, catadores de corpos e cremadores.

Concomitante, os cinemas passavam propagandas do novo método de matar ratos e pestes: o gás. Alguma semelhança com a nossa maneira contemporânea de execução?

Talvez, para realmente salientarmos o caráter único do Holocausto, seria necessário compará-lo com tantos outros únicos e amendrontadores. Porém, poucos tão apocalípticos. O caso armênio de 1918 perpretado pelo decadente império turco possa ser o mais próximo pelo número e forma. A burocratização, os trens, horários, demografias, estatísticas se assemelham. O que diferencia são dois pontos centrais. Primeiro, a falta de um método científico de aniquilamento. Os armênios foram massacrados entusiasticamente por populações rurais e não por profissonais do colarinho branco. Segundo, o massacre turco foi por motivos geopoíticos, não ideológicos. As vítimas eram vistas como traidores à serviço czarista, infiéis e moradores de uma importante região estratégica.  Não há nada que se assemelha em termos de fins um e outro. Talvez de meios.

  1. Muito boa a sua concepsão do assunto, só acho que não entendeu o objetivo do filme “Arquitetura da destruição”. O filme conta a história de Hitler com uma visão um pouco diferente direcionada para a maneira como ele ascentiu o sucesso usando técnicas de comunicação visual e audio-visual tendo a arte e a cultura como armas para conseguir seus objetivos. Apesar de sua visão do filme ser distorcida está muito bem trabalhada , parabéns.

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