Ariel Pires de Almeida

DAS AUTO

In Uncategorized on 12/07/2010 at 20:49

 

A propaganda de automóveis fornece a possibilidade de uma rica análise da sociedade pós contemporânea. A popularização do carro é fenômeno dos anos 90 a 2000. Seu uso é radicalmente alterado, perdendo sentido a famosa expressão carro de passeio. Com o desenvolvimento arrojado previsto para o metrô paulista, a reação se clarifica, tornando-se óbvia a inversão dos valores que movimentam nossa rápida realidade. O rico cada vez mais se enclausura em condomínios fechados, enquanto o pobre trabalha motorizado através de módicas parcelas que nunca serão realmente pagas. Se a televisão se popularizou a ponto de existir em todas casas brasileiras, o automóvel hoje se generaliza. Permaneçamos nos anúncios televisivos da Volkswagen, “das auto”.

            Um suposto novo conceito de pick up é apresentado pela montadora. Forte, espaçoso e acessível. A forma como passam a mensagem que é interessante. A história é de um indiano no clima da copa africana que possui um elefante que o acompanha por todos lados. Carrega o humilde homem para o drive in, trabalho e pic nic. Com o tempo, o pobre animal perde sua condição física e o herói passa ele mesmo a carregá-lo em suas costas. Claro, que as costas são a parte traseira da pick up.

            Três questões podem ser pensadas a partir de nossa análise. Primeiro, o aspecto longevo anti natural e progressista da tecnologia de ponta em oposição à degenerativa vida animal. Segundo, o revelar constante e violento encarado com gosto e naturalidade da cultura globalizada na tradicional e humilde vida do terceiro mundo. Finalmente, a falta de compromisso de verossimilhança  por parte das campanhas publicitárias com verdadeira vontade educativa. Se a copa é momento de aproveitar para difundir conhecimentos geográficos, históricos, sociais – sem contar a valoração da cidadania -, o grupo Volks presta um desserviço para a população – apesar da inteligência da marqueteira – ao relacionar a cultura hindu com quaisquer das africanas. Não podemos esquecer também o caráter ideológico impresso na ideia do carro como extensão do corpo humano…

            Deixemos de lado…

            A questão material que envolve a sociedade motorizada é com total certeza seu combustível. Mas, agora, qual veículo auto motor mais se utiliza do petróleo? Estima-se que uma temporada de Fórmula 1, reconhecida por sua alta taxa de desperdício energético, não chega a consumir o tanto de uma viagem – ou mesmo, partida – de um avião bimotor. O que diríamos de uma astronave? Ou satélite? A burguesia sustentável criou um novo inimigo, o automóvel – poluidor de alta periculosidade. Não por acaso, essa ascensão ideológica é acompanhada pelo descenso dos preços dos carros e o aumento do problema de tráfego no mundo em desenvolvimento.

            O problema do carro se resolve no pobre. E não apenas. Como na Europa há muito é comum, agora nosso Brasil busca se reencontrar em trilhos sadios. A ferrovia, abandonada nos anos 50 em favor do lobby do petróleo, volta como redentora da burguesia sustentável. Mas agora nem ferrovia mais é, imãvia. O trem-bala. Pergunto-me quanto me custaria, diante do triunfo ludopédico brasilianista, um ticket São Paulo-Rio de Janeiro. 200, 300, 1000 reais. Quem sabe? 100 não seria. Enquanto isso, a ponte aérea poderia valer cerca de 15 a 30 reais. Hoje já custa meros 50.

            Com quem fica então o caos aéreo, as tragédias, o marasmo dos aeroportos? Homens de negócios? Casais em noivado? Ou muambeiros preguiçosos? Para quem fica a culpa do tal combustível que tanto poluí quanto acaba? Afinal, não estariam acostumados a relaxar e gozar?

            O mesmo suscede no metrô paulista em expansão, a famigerada linha 4-amarela. A pompa e orgulho que remete sua inauguração já me faz crer para quem tal linha não fora projetada. Para quem então seria?

O futuro dos ricos é o enclausuramento – que provem de “enclousers” daquela virgem Elizabeth I. Dos pobres, o engarrafamento. Dos medíocres, o submundo subterrâneo. Oscar Freire, Faria Lima, Paulista, Butantã e, quem sabe, Pirituba.

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