Ariel Pires de Almeida

ESPAÇO, ECONOMIA E POLÍTICA EM HEGEL E MARX

In Uncategorized on 12/07/2010 at 20:37

ESPAÇO NOBRE, ESPAÇO BURGUÊS

A acumulação de fato primitiva de capital se inicia com a estocagem de alimentos em cidades fortificadas, cujo centro é o castelo feudal. Os pobres camponeses produziam a terra e pagavam corvéia, talha e banalidades – tributos garantidos em comida. Essa representa a forma última de distinção do homem civilizado do bruto, a estocagem assegurada contra a pilhagem. Uma vez concentrado, o alimento é consumido pela população que pede abrigo ao nobre senhor. Essa comida é combustível, energia unificada que potencializa a construção e organização de uma realidade fortificada. Já dizia Braudel que o primeiro ato em ocasião de uma fome era o fechamento dos portões das cidades contra os campônios famintos. Nesse sentido, a construção murada, realidade espacial dos tempos medievais e moderno – porém não contemporâneo -, tem sentido maior como proteção contra ameaças internas que externas. O estrangeiro do próprio solo.

            Nossa referência de análise nos leva a aproximar as visões marxista e hegeliana de processo histórico. A oposição em comum torna-se disposição incomum. Se por um lado, as discordâncias de objeto são latentes, as de método semelhantes; as de conteúdo, muito parecidas. O que alimenta tal fusão é o espaço que os solidifica em uma grande e coerente explanação do processo de análise da formação da sociedade burguesa – fato contemporâneo a ambos. Se um pensa o direito a partir da filosofia, outro pensa a filosofia da economia política a partir do direito, mas ambos a partir de uma premissa empíricamente dialética. A realidade deve ser colocada pela sua realidade. O geral pelo particular.

            A visão hegeliana de religião e da relação senhor/escravo são interessantes como ponto de partida e chegada para nossa discussão. Para Hegel, o cristianismo representa o ideal máximo da civilização ocidental em direção ao seu Conceito. O caminho de Cristo representa o caminho dialético aristotélico: o universal se particulariza para novamente se universalizar. O pai provê o filho que reencarna no espírito santo. O tripé do cristianismo é o mesmo da dialética hegeliana: tese, antítese, síntese. Por outro lado, a relação senhor/escravo nos revela uma questão de objeto se, por outro, aquela for de método. A organicidade do trabalho é implicada na dominação e submissão mútua de senhor e escravo. Assim como a organicidade da divisão do trabalho também se explana em tal oposição complementar. Ambas dão as bases para a compreensão do mundo burguês humano, conceitual, espiritual.

ECONOMIA NOBRE, ECONOMIA BURGUESA

 

O que aproxima tanto um tipo de economia quanto outro, também une uma forma civilizatória da outra, um método de expressão e reconhecimento do Conceito e Espírito. A economia aristocrática, por sua forma – a um tempo rural e urbana – cria o movimento que a supera com o desenvolvimento da cidade murada e fortificada e a formação do trabalhador urbano artesão e manufatureiro. Quando o meio urbano passa a suplantar o rural com o mercado em expansão, surge necessidade de transformação qualitativa do segundo. Daí os enclousers de Elizabeth I. A massa de camponeses famintos que imploram abrigo aos castelos feudais aumenta desproporcionalmente. A quantidade se transfigura em qualidade. O aumento populacional urbano transforma sua própria função. De produtor e protegedor torna reprodutor e imperial.

            O ponto central é o trabalho e sua forma de compulsão. A nobre é a servil que beira ao escravismo. Enquanto a burguesa é livre e assalariada. Tanto Marx quanto Hegel concordam nesse ponto. Todos homens livres são proprietários, mesmo os despidos de suas próprias roupas e famintos por ossos. Proprietários de sua própria força e vontade de trabalhar. Ora, então não há problemas! O Homem atingiu o Conceito plenamente e aboliu a opressão comum a sua espécie. Bom!

            Entretanto, Marx ratifica um ponto talvez ignorado ou desprezado pelo velho Hegel. A civilização burguesa é mais embasada no trabalho livre que a aristocrática, mas a importância da propriedade na primeira diz respeito mais ao não dito que ao tão explicitado pelo segundo. A propriedade dos meios de produção não se emparelha aos da força de trabalho. A liberdade de produção não se limita à de consumo. Pelo contrário, se expande. Hegel acaba parando num tempo de nobres ao pensar a questão da produção de valor em termos de uso, não de troca. A indústria não trabalha para a sociedade, mas esta para aquela. O motor é a valoração reproduzida em mais-valia.

            Talvez uma digressão…seria a prostituta uma proletária ou burguesa? Depende. Seja do grau de atividade ou de relação com o resto da sociedade. A meretriz de bordel trabalha em cooperativa. As daquele Sin City (quadrinhos de origem norte americana), em sindicato e a maioria, escravidão. Todavia, em termos do que a lei brasileira propõe acerca da prostituta, esta seria respeitada tal qual um produtor de cerveja ou cânhamo nos EUA. Talvez não chegue a tanto. É a vantagem da digressão – falta de comprometimento. Como for, o corpo feminino é em essência uma máquina para a REPRODUÇÃO, fazendo da dita cuja uma proprietária de meios de reprodução do Capital, isso é, a força de trabalho.

POLITICA NOBRE, POLÍTICA BURGUESA

 

Se juntarmos o descrito com o introduzido, teríamos a seguinte ideia de síntese do pensamento político-espacial de Marx e Hegel. O Espírito do povo que se exprime na civilização são os estágios marxistas de desenvolvimento para a sociedade capitalista. A acumulação primitiva é aristocrática, enquanto a capitalista é burguesa.

            Pensemos em cada um dos três estágios.

            Aquele primeiro (séc. XI-XV), em que se liberta a força de trabalho, é o auge da civilização nobre em sua contradição servil; o segundo (XVI-XVIII), exprime a decadência desesperada pela manutenção do poder. Diria Perry Anderson nas Linhagens, que o absolutismo exprime a vontade aristocrática de se manter como classe dominante. A acumulação capitalista (XIX-…) é revolucionária perante a primitiva.

            No Capital, Marx se centra no segundo estágio da acumulação primitiva. Aquele que produz o salto que possibilita o M-D-M se transfigurar em D-M-D´, quando a civilização aristocrática revela seu golpe final contra o trabalhador do campo, sua expulsão. A nova realidade é a de Utopia, onde ovelhas comem seres humanos e veados são caçados por príncipes e duques.

O presente trabalho é despido citações. Seu desenvolvimento segue as análises feitas em sala de aula e as leituras promovidas ao longo da graduação. Manteve-se o foco de discussão dos textos selecionados, mas aprofundou-se com questões pontuais de outras obras de vital importância para se pensar a história em sua teoria.

 

 

BIBLIOGRAFIA

 

Hegel, F. – A razão na história

Marx, K; Engels, F.  A Ideologia alemã. São Paulo. Martins Fontes. 2007.

                Manifesto comunista. São Paulo. Ed. Martin Claret. 2005.

                Manuscritos Econômicos e Filosóficos. São Pauo.  Ed. Martin Claret. 2006.

                O Capital – cap. A Mercadoria. Livro 1. Vol. 1. Civilização Brasileira. Rio de Janeiro, 2004.

 

BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR

 

Marx, K – O Capital –cap.  A chamada acumulação primitiva de capital. Livro 1. Vol. 1. Civilização Brasileira. Rio de Janeiro, 2004.

Braudel, F – Civilização material, economia e capitalismo, séculos XV-XVIII – As Cidades (cap. 8). Vol. 1. Martins Fontes. São Paulo, 2005.

                – Mediterrâneo e o mundo mediterrânico na época de Filipe II

Anderson, P – Linhagens do Estado absolutista

 

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