Ariel Pires de Almeida

QUESTÃO JUDAICA

In Uncategorized on 16/02/2011 at 00:51

O judeu desde o advento da revolução burguesa (1789), buscou na qualidade de burguês sua emancipação. Um movimento conhecido como Hascalá refletiu tal desejo em formas teóricas e políticas. A vontade era de emancipar-se civil e politicamente, igualando-se aos súditos critãos.

O Estado cristão é caracterizado pelo privilégio. Isso se reflete no fato de que não é possível a emancipação enquanto o suposto Estado permanecer cristão e o judeu fiel à sua doutrina. Este é comumente colocado como estrangeiro, pois contrapõe sua nacionalidade utópica à nacionalidade real e portanto não toma parte do movimento histórico por projetar um futuro diferente como povo eleito. Para Bauer, para emancipar o Outro devemos antes emancipar a nós mesmos, implicando que para oposição religiosa, deve seguir a  abolição da oposição e, assim, a abolição da religião. O problema  é a  contradição entre religião e Estado, entre emancipação política e preconceito religioso. Para o judeu, sua emancipação se dará pela sua transformação em cidadão e consequente privatização de sua religiosidade.

Pensemos por um momento na função do Estado, como Bauer explicita. Seu ideário é o da liberdade universal, representado na igualdade entre cidadãos. Com a revolução de 1789, a vida passa a ser livre, mas, ao mesmo tempo, anulada em tal liberdade pela lei. Nesse sentido, a emancipação seria atingida pelo judeu apenas quando este renunciar seu judaísmo e assim abolir-se dos privilégios religiosos e estabelecer o cumprimento de tais deveres em âmbito privado. Essa lógica segue o princípio que a abolição política da religião significa a abolição de toda religião.

Caso a caso.

Na Alemanha o problema se centrou na questão teológica, isto é, em crítica bivalente que considera a oposição cristã x judaica. Na França, tomou forma constitucionalista, mas sem perder o caráter teológico graças ao advento da religião de Estado. Ora, nos EUA, perfeito na pureza de suas instituições republicanas, o Estado se coloca como estranho aos cultos, porém permanece sendo um país de intensa religiosidade, expressa em âmbito privado. Para Marx, essa religiosidade implica uma insuficiência ou mesmo limitação secular. A relação emancipação política x emancipação religiosa deriva para a emancipação política x emancipação humana. O Estado se desprende da religião, afirmando-se pura e simplesmente como Estado, possibilitando a liberdade sem que o homem se coloque livremente. É uma emancipação indireta porque tem a necessidade de um intermediário que é o próprio Estado que se define dessa forma entre o homem e a liberdade humana.

O Estado portanto pressupõe diferenças efetivas – propriedade, educação, profissão – , revelando sua universalidade em oposição a tais diferenças e assim se distinguindo essencialmente das formas de autoridade e fé. Constituí-se assim a vida genérica – relegada ao Estado – em oposição à vida material. Sociedade civil e esfera política. Terrestre, celestial. A dupla essêcia da vida: burgeois x citoyen. Esta oposição que no último reflete o interesse público x interesse privado é que gera a mudança.

A emancipação política da religião implicaria portanto na supressão do direito público em face ao privado, fazendo com que esta não seja mais, na terminologia hegeliana, Espírito do Estado. Portanto, a emancipação política se daria apenas com o deslocamento da religião de Estado para a sociedade civil.

“A desintegracao do homem em judeu e cidadao, protestante e cidadao, homem religioso em cidadao, nao e uma fraude praticada contra o sistema politico, nem sequer um subterfugio da emancipacao politica. E a propria emancipacao politica, o modo politico de se emancipar da religiao (…) O Estado pode e deve prosseguir na abolicao e na destruicao da religiao; mas so da maneira como realiza a abolicao da propriedade privada, pela declaracao de um maximo, por confiscacao ou taxcacao progressiva ou da maneira como decide abolir a vida, por meio da guilhotina” (A questao Judaica, p 24)

  1. Pengunto-me se o Estado de Israel não caminha na contramão da idéia de que “Para o judeu, sua emancipação se dará pela sua transformação em cidadão e consequente privatização de sua religiosidade.”, na medida em que se esforça por fazer coincidir Estado e nação judaica.

  2. Fala, Ariba!

    Te achei na net e por consequencia seu blog. Massa!

    Li o texto uma vez só e fiquei meio perdido com tantas emancipações e supressões, hehe.

    Mas acredito que em um Estado laico, a religião deverá ser privada, já que está contida no cidadão, que é a pessoa pública e o representante social do homem dentro da sociedade. Portanto, o primeiro nível de qualquer um neste tipo de sistema é ser cidadão.. Os níveis subsequentes podem ser diversos…. inclusive no ambito religioso. Abs!

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