Ariel Pires de Almeida

grito de grilos II

In Uncategorized on 11/03/2011 at 10:33

O conto título, por fim, desenha a sociedade provinda do banditismo. Assemelha-se àqueles nos conhecidos de histórias de Guimarães Rosa, Jorge Amado e Euclides da Cunha, talvez. A terra do cangaço. Pois, por detrás do sertão, do chapadão sempre há o injusticeiro de rosto aberto. Viril, inconteste, impiedoso. Encampa a idéia da luta contra o latifúndio, contra as tropas federais representadas pelo gal. Petronilo Flores. “nos havíamos levantado da terra como mamona madura levada pelo vento para encher de terror todos os arredores do planalto” (p. 272).

Existem sim os problemas crônicos de eterna emergência. Mas haveriam também os de ordem crucial, conjuntural. Seria a questão do latifúndio, da reforma agrária, do banditismo.

Há ao menos quatro contos que expressam de forma clara a opressão do latifúndio e a revolta calada, mortífera do solitário, tedioso, silencioso camponês. Seriam: A colina das comadres, O homem, Na madrugada, Diga que não me matem.

A opressão que segue. A revolta aberta que consome e a morte violenta que acompanha.

Desembocamos na leitura de um povo condenado por suas próprias chagas. Inflamado em suas próprias chamas qual o mural de Diego Rivera, Hombre em llamas (Carlos Fuentes, Espelho Enterrado). Em Talpa, a imagem das chagas, consumidas por sua própria solidão é latente. A elas, confronta-se a luxúria, a culpa ao alívio. A religiosidade interpretada pela multidão esquálida, moribunda, penitente e supersticiosa. Tudo em torno da personagem da Virgem de Talpa. A peregrinação.

É interessante notar a questão do culto à Virgem e às chagas do Redentor. Menos comum no México é a adoração do pai vingador, viril, o Gran Chingón. Adora-se o solitário mártir, mas principalmente a pobre chingada. Violada pelo próprio todo poderoso. E o inocente José, corneado pelo mais alto dos altos?

Nem pra tanto…

Os mexicanos são segundo Octávio Paz, filhos da Malinche, a chingada. Por isso a odeiam, qual odiariam o apóstolo Judas. Condenou o filho. Condenou a pátria, ou talvez, o império, o universo. Malinche ousou cometer o pecado original. O resultado seria a condenação de um mundo relevado à sua própria solidão. E o surgimento de outro, qual opressor tal o último. Talvez ainda mais…

Malinche representa a aberta em contraposição ao fechado, auto-preservador, violador Cortes. Mas qualquer civilização que se norteia por sua eternalização, deve fazê-lo através da internalização de seus aspectos mais contraditórios. A Malinche representa a essência da mulher mexicana, assim como a FESTA se converte na essência do labirinto da solidão que se envolve o triste mexicano. A explosão que culmina na morte, a única real e extrema forma de comunhão com tudo que é vivo, com o outro.

Pois, a morte se revela com a comunhão de toda vida, assim como a vida se consome na solidão do dia a dia…

O que se coloca em questão é o fechamento das relações frente ao mundo. Não implica claro, passividade, mas cria a simulação ativa inovadora. O que está por detrás é a preservação que implica a solidão. É a mentira para si mesmo. É o jovem. Honesto com o mundo, falso consigo. Desonestidade falseadora que remete à supressão de carências e apetites. O amor replica ao abandono de si, à renovação constante. Mas o verdadeiro amor implica na violação do outro, supressão, submissão, vaidade interpretada fielmente pela personagem de Don Juan de Marco (personagem espanhol). A simulação é a invenção, o elidir de nossa condição. Mas quem dissimula não representa, passa despercebido (invisível).

Eis que surge, o mimetismo.

O mexicano “dissimula tanto a sua singularidade humana que acaba por aboli-la; e se transforma em zebra, árvore, em muro, em silêncio: espaço” (Paz, p. 42). Com medo da aparência, torna-se Aparência pura.

Chame-as NENHUMAÇÃO. SILÊNCIO. TÉDIO. SOLIDÃO.

Disso surge a contradição explosiva, intrínseca. Engraçado que por mais pobre, mais festejos. Os saxões possuem seus cocktails, weekends, festejos individualistas, solitários. Surge a ruptura violenta com o estabelecido NO México e países ditos em e/ou subdesenvolvidos. Pode ser também que dinheiro chame dinheiro. Bonança, desperdício chame prosperidade. Sangue traga vida. “é uma revolta, uma súbita imersão do informe, na vida pública” (Paz, p. 49). É a sociedade que se auto-dissolve, afoga-se em seu caos ou liberdade original. É um regresso, recomeço, recr(e/i)ação. É por essência a comunhão, abertura. Os americanos divertem-se na esterelidade, sem ritual, em pequenos grupos.

A morte mexicana é ritualizada, coletiva. É um diálogo com o mundo. Alimento ao mundo. É um suborno aos deuses, únicos que são livres, que traem. O México surge de uma traição divina.

O catolicismo implica o sacrifício e salvação pessoal, a liberdade se humaniza. O mundo está condenado, não o homem.

A morte moderna não tem nenhuma significação trancendente. “Num mundo de fatos, a morte é um fato a mais” Paz,   ). O século da saúde é também o dos campos de concentração.

O mexicano indifere com a morte revelando a inferença para com a vida. Festejo, acolhimento da morte. As entranhas maternas se convertem em cova, não útero – do pó viemos. A morte implica a inocência reconquista. É a vida, a nostalgia da morte.

Conflue-se a tristeza de um país com tais festejos quais alegres e coloridos.

Solidão – Festa

Vida – Morte

Desconfiança – Comunhão

Seca – Torrência

O medo de ser…solidão e orfandade

O tempo é o mais pesado que a mais pesada carga que o homem consegue agüentar. Assim e embora tenha continuado mantendo seus rancores, o ódio foi mormando, até transformar aquelas duas vidas em uma solidão viva” (Rulfo, p. 373).

Em O dia do desmoronamento, a tragédia natural se escancara e se converte em festejo público, secular. O Estado promove a gastança e bonança. Claro, como preveria Paz, o festejo termina em matança. Sangue clama por sangue.

Os homens que morreram foram contratados para a morte (Rulfo, p. 361).

Uma última palavra acerca da utilização da literatura e ficção para o historiador. Não direi muito. Deixarei falar por mim uma citação retirada do livro História da vida privada, capítulo escrito por Nicolau Sevcenko.

Se você pretende compreender a sua própria época, leia as obras de ficção produzidas nela. As pessoas quando estão vestidas em fantasias falam sem travas na língua (Arthur Helps, Life and labours of mister Brassey, 1969).

BIBLIOGRAFIA

RULFO, Juan – Pedro Páramo & Chão em Chamas. Trad. e prefácio Eric Nepomuceno, Rio de Janeiro, 2008 (1953/55)

Paz, Octavio – O labirinto da solidão. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1984 (original: 1949)

ASSIS, Machado – A Igreja do Diabo, in: Melhores Contos, São Paulo, Global Editora, 2006

SEVCENKO, Nicolau – A Capital irradiante: técnica, ritmos e ritos do Rio, in:História da Vida Privada no Brasil. República: da Belle Époque à Era do Radio, São Paulo, Companhia das Letras, 1998

FUENTES, Carlos – O Espelho Enterrado. São Paulo, Rocco, 1992

Morse, Richard – O Espelho de Próspero. Cultura e idéías nas Américas. São Paulo, Companhia das Letras, 1988

TODOROV, Tzvetan – A Conquista da América: a questão do outro, São Paulo: Martins Fontes, 1983

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