Ariel Pires de Almeida

Solidao em chamas I

In Uncategorized on 11/03/2011 at 10:15

“é que lá o tempo é longo. Ninguém faz as contas das horas. E

ninguém se preocupa em ver como os anos vão se acumulando.

Os dias começam e acabam. Depois vem a noite.

Só o dia e a noite até o dia da morte, que para eles é uma esperança”

(Livuna. Chão em Chamas, p. 309)

 

“Depois veio a escuridão. Nessa noite não se acenderam as luzes,

de luto, pois Dom Justo era o dono da Luz” (Na madrugada, p. 233)

 

“Aqueles que morreram foram contratados para a morte”

(O dia do desmoronamento, p. 361)

 

 

 

O que impressiona qualquer um que estude a sociedade mexicana é a maneira com a qual lidam com questões tão abomináveis quanto, por vezes, inomináveis para o sujeito comum do ocidente. Particularmente, refiro-me à MORTE. Festejada, zombada, concretizada humorísticamente na forma de bonecos coloridos. Talvez seja que esta não fosse tal sombria qual imaginávamos. Ou mesmo, os mexicanos, pelo menos, não pensavam assim. Não por tanto, o eu lírico infantil de Macario afirma ser na luz que o pecado se infiltra.

A questão é muito bem colocada por Machado de Assis: exprimindo haverem muitas maneiras de se revelar a vida e, dessa forma, a glorificação de Deus; mas apenas uma de negá-la. Eis que surge a Igreja do Diabo. Nesse sentido, poderíamos colocar que a vida se manifesta de várias formas, categorizadas em espécies. Mas como manifestação de vida, essas formas pouco se reconhecem, a não ser pelo gesto negativo, expresso plenamente na relação de predação. Entretanto, por ser uma relação, ela é imprescindivelmente absoluta. Logo, a vida se comunha através da morte. O que une a todos e tudo é o verme que corrói sem distinção árvores, animais, flores e homens, ricos e pobres.

Este é o dilema do homem, da natureza: A solidão das células vivas amalgamadas no movimento da morte. Este é o dilema mexicano. Por um lado, a aniquilação de um mundo irrecuperável; por outro, a afirmação de outro inassimilável. Entre o festejo da morte mexica e seu legítimo temor ocidental, o mexicano se vê preso em seu próprio ser, inabalável, irresoluto, embriagável e indistinto. A solidão travestida de sociedade, coletividade, nação.

A comunhão expressa na violência.

Este estudo se converteria, portanto em uma resenha de dupla natureza. Forcei-me a unir dois grandes nomes, duas famosas obras. Unidos pelo desprezo que receberam e festejo com que foram recebidas. Talvez esse fato já revele intimamente a essência mexicana: o desprezo na vida, a celebração com a morte. Juan Rulfo (1917-86) e Octávio Paz (1914-98), Labirinto da solidão (1945), Chão em Chamas (1953). Ambos se convertem nesta humilde análise que não busca esclarecer nenhum, mas clarear certos pontos de ambos; compará-los como únicos, membros inegáveis do rol do pensamento latino americano. Um na via poética outro na acadêmica, Paz e Rulfo realizaram o que se espera de máximo na intelectualidade: a expressão do tempo, do espaço, enfim, do povo.

Não acho que seria de todo errôneo comparar Juan Rulfo com Raduan Nassar (1935-…). Suas vidas confirmam a afirmação. Escritos únicos e universais; solidão, acima de tudo, por detrás; assim como o Brasil e o México são comparáveis, como todos os latino-americanos ou mesmo seres humanos. Isso porque a solidão e a morte são intrínsecas à vida.  Analisemos por exemplo o primeiro conto de Chão em Chamas. A narrativa lembra aquele Vidas Secas de G. Ramos. Apenas que um expressa o camponês fugidio de terras inférteis que não possui, enquanto o outro afirma a terra dada, reformada em termos de agrária, mas também, em sua essência, infertilizada. O Brasil rumou em direção ao São Paulo nordestino, solitário na babilônia urbana. O mexicano escolheu por abolir o latifúndio e transformar o camponês pleno na solidão da propriedade privada. Os meios diferem, mas seus fins…

Tanto um quanto outro são os maiores da América Latina. Ambos se urbanizaram. Ambos se individualizaram. Ambos são consumidores da produção externa regurgitada.

Tudo ao ponto que o pó, a poeira da terra, converte-se em bênção ao banhar os protagonistas do conto em questão. Isso porque o Chapadão nem disso tem.

A dialética da solidão, presente em toda forma viva, especialmente na consciente, apresenta-se para o mexicano como uma realidade indelével, esmagadora. Se, E nos deram a terra, apresenta-se uma idéia de vida isolada de si mesma e de suas formas próximas, É que somos muito pobres, revela o lado reverso da moeda. No primeiro, o governo entrega o solo que não comunga com os vivos. A revolução que, em seu desenrolo, torna-se a expressão da comunhão do mexicano com si mesmo, acaba por desenrolar na solidão escancarada da pequena propriedade.

O segundo mostra a realidade de um mundo em seu extremo. Uma sociedade condenada por seu próprio tempo, enclausurada em seu temível espaço. Se a seca, em toda sua falta de vida, representa o positivo; a chuva só poderia revelar o oposto. A morte no excesso de vida: a Torrência. Que tudo mata, sem piedade estraçalha os sonhos do pobre pai da pequena Tacha. Se a seca representa a vida isolada em sua própria solidão, a torrência simbolizaria a esperança da morte, pois apenas em uma realidade de indiferença perante a vida para que se espere algo com o além. Ao menos, um contato com o outro, nem que seja o último.

Talvez, o primeiro…

Careceríamos de muito, se não buscássemos uma divisão adequada dos contos aparentemente sem conexão uns com outros. Diria que haveriam quatro ou cinco de extrema significância. Abordam as questões crônicas, inevitáveis da realidade mexicana. Seriam: É que somos muito pobres, Macario, Chão em chamas, Luvina. A questão entorna a idéia da solidão contrastada com a morte, a seca e a chuva.

Em Livuna, percebe-se uma clara situação de total desconsolo, a falta de santos remete à ausência de Deus que se resume no silêncio, na tristeza.

San Juan de Livuna. Aquele nome soava a nome de céu. Mas aquilo lá é purgatório. Um lugar moribundo onde morreram até os cães e já não há nem quem ladre para o silêncio; pois assim que a gente se acostuma ao vendaval que sopra por lá, não se ouve nada além do silêncio que existe em todas as solidões (Chão em Chamas, p. 312).

O silêncio acaba por se enquadrar com a imagem e som do grilo. Afirma a jovem personagem de Macario, serem as almas gritando no purgatório, o som dos grilos. Aquele que só se manifesta no extremo silêncio. Que em sua solidão engolfa tudo. Seria o México esse purgatório? Quem são essas almas que urram? Os habitantes de Livuna? De Chiuahua? Morelos? Tenotchitlan?

Os saxões temem a escuridão, como afirma a própria canção da banda inglesa Iron Maiden (Fear of the Dark, 1989). A jovem personagem acredita que na escuridão, na solidão, o pecado não alcança, pois nada é visto. Se o pecado não chega tampouco sua superação, redenção. Todos acabam no purgatório, portanto. A resposta da moderna questão acerca da América – seria paraíso, purgatório, inferno? -, ao menos para o mexicano parece respondida. Ou será?

Para o jovem, o sabor do leite materno – símbolo da vida -, assemelha-se ao sabor do sangue escorrido. A vida se enlaça na morte, envolta no perigo inelutável da fome. Assim, a luz se integra ao pecado, enquanto, o negror não é alcançado por tais demonices. Os insetos, baratas, escorpiões não atingem no escuro. Se sim, não se sente, não se envolve, apenas morre. E que mal há nisso?

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