Ariel Pires de Almeida

revolucao no mexico 100 anos depois

In Uncategorized on 14/05/2011 at 06:11

1914, o clímax revolucionário

 

            Para se compreender a questão, ou melhor, as questões em torno das revoluções mexicanas (nos dizeres de Octávio Paz) foquemos no ano de 1914, exemplar nesse quesito e clímax de um movimento que se mostrara imerso no cotidiano. Seu princípio demonstrou-se aparentemente unido ao redor da luta contra a tirania porfirista. Mas, o desenrolar histórico desmentiu tal equívoco tão ingenuamente apostado por Francisco Madero. Logo, o conflito se revelaria em suas verdadeiras e múltiplas faces. Se a aliança e traição de Victoriano Huerta são suficientes para salientar as contradições, o que viria a seguir beiraria o paradoxo.

            Seguidas as celebrações da união nacional contra os usurpadores Huerta e Félix Diaz, novamente a realidade crua emerge repleta de seus conflitos e interesses. O México se vê no ano de 1914 mais que dividido, dilacerado. Carranza governa no centro do poder político que é a Cidade do México, porém esta não mais se comunica com o resto do país. Zapata lidera a inssurreição em Morelos, implanta seu projeto político, reinstaura a propriedade comunal indígena e luta pela utopia camponesa. Enquanto Villa cavalga com a temível División del Norte, combatendo por camponeses  que almejam a pequena propriedade rural e por setores da classe média urbana preocupados com pontuais mudanças sociais. Acima, o burbúrio de uma ação em âmbito nacional sem um sólido projeto para a nação; heterogêneo e moderno. Abaixo, a luta tradicional campesina e local, mas com uma proposta a nível nacional. No centro, o poder sem governo ou governo sem poder; a constituição sem representados; a nação sem cidadãos. O encontro em Aguascalientes (outubro de 1913) apenas explicitaria o que já chamava atenção aos observadores mais argutos.

            As forças em luta tornam-se, então, aparentes e o confronto, aberto. De um lado, o carrancismo amante da ordem, da organização constitucional, do governo democrático e do progresso material. Afastado da ingenuidade maderista, buscará reformas concretas como a agrária, principalmente. Para ele, o Estado se constituiria pelo monopólio da violência. Dessa forma, seria necessário o aniquilamento de qualquer outro poder armado, seja pela eliminação física, desarmamento voluntário ou integração no exército nacional. Eram os CONSTITUCIONALISTAS, grupo heterogêneo e em disputa interna. O zapatismo se constitui por camponeses que buscam a recuperação de suas terras perdidas durante o porfiriato para o latifúndio canavieiro. Seu exército (Libertador del Sur) é conhecido por sua invencibilidade em sua terra e incapacidade da ação fora da mesma. Os recursos logísticos são capturados do inimigo e seu projeto é muito bem definido no Plan de Ayala (1911): a restauração da propriedade comunal indígena. O villismo comanda a División del Norte cuja ação se dá em âmbito nacional com extrema mobilidade e rapidez, mas seu projeto político não é tão claro. Os recursos logísticos são facilitados pela proximidade norte americana e o exército regular é contraposto ao batalhão de camponeses representado pelo zapatismo. Sua proposta é de uma reforma agrária à francesa que transformaria o camponês que há muito havia perdido suas terras em um pequeno proprietário. Ambos, zapatistas e villistas, formarão o grupo CONVENCIONALISTA que de fato nunca ambicionará a tomada do poder. (Interessante ressaltar que o projeto de transformação baseado na conquista do poder se liga à proposta marxista que será preponderante a partir da década de 30. Não é o caso.) As diferenças e contradições políticas e geográficas, o oportunismo e o cinismo se mostram como as múltiplas facetas da Revolução. O conflito se revela: a luta entre uma linha de transformação do México com base no projeto liberal vitorioso na Europa do XIX e a luta camponesa.   

            Nesse momento, torna-se claro que a opinião na qual toda revolução se apresenta como um convite a um projeto racional de futuro não se confirma aqui. O México não é concebido como um porvir a se realizar, mas como uma volta ao já realizado. A noção mítica de “idade de ouro” é que possibilita a idéia de uma injustiça que barra a potencialidade humana. Para Zapata, a liderança revolucionária exemplar, “toda construção política deveria partir da porção mais antiga, estável e duradoura de nossa nação: o passado indígena” (PAZ, p. 130). Nesse sentido é que se compreende que a Revolução não se concretizou como mais um passo para a modernização nacional antecedida pela Independência (1810) e Reforma (1857). Pelo contrário, a idéia por detrás do movimento alia-se com mais consistência aos projetos vanguardistas que passarão a evocar a cultura popular na década de 30, apesar de suas sólidas projeções políticas (seja à direita como à esquerda), que ao ideal novólatra, futurista, idealizador do processo fabril dos anos 20. Manuel Lopes Arce, por exemplo, imerge-se no presente, mas sempre buscando uma historicidade a partir desse presente. O México, entre 1910 e 1920, irá se imergir em si mesmo, recusando-se a ser salvo por qualquer proposta que não lhe diga respeito. Movimento que renuncia a qualquer consolo e penetra em sua própria intimidade. A solidão se equivale à comunhão e a luta se equipara a uma festa.

            Porém, a festa termina e o mexicano volta a se recolher solitário. Nem tudo se perde nessa comunhão efêmera. A Constituição de 1917 é o maior legado da Revolução iniciada em 1910. É a marca de sua institucionalização. O processo de redação diz muito sobre seu conteúdo. Redigido em meio à repressão aos movimentos camponeses de Morelos e Chihuaua, será apresentado de forma a reunificar a nação e abafar futuras manifestações. A Constituição se travestirá de síntese revolucionária, praticando a reforma agrária, dando direitos a trabalhadores e proibindo a reeleição. Será de fato a mais moderna Carta da América Latina e fará do México o país mais estável politicamente da região.

Mas a que custo?

A repressão às tropas de Pancho Villa exemplificam bem a questão. O operariado mexicano, composto por 15% da população, era dividido entre socialistas das centrais sindicais e anarco-sindicalistas. Os últimos lutarão ao lado de Zapata. Os primeiros, por sua vez, formarão os polêmicos Batallones Rojos, marcharão para o norte ao encalço de Villa em troca de direitos que seriam dados pelos constitucionalistas. Seriam, com a capitulação do villismo, eles mesmos destruídos, quando não fuzilados. Em sua maioria, os líderes revolucionários de todos os lados da luta foram assassinados, revelando a cisão intermitente na sociedade mexicana. Enquanto isso, o PRI (Partido Revolucionário Institucional) colocará as vestes da estabilidade. A Revolução é parte constante no imaginário mexicano, colorida nos murais, festejada nas comunhões e demagogizada nos discursos.   

Isso porque o mexicano nunca se esquecerá do movimento que possibilitou seu atrevimento em ser. Um “ser” por excelência intransitivo, efêmero que da luta se separa, do amor se mata e da alegria se desampara. No dizer de Octávio Paz: “Nossa Revolução é a outra face do México, ignorada pela Reforma e humilhada pela Ditadura (…). A explosão revolucionária é uma festa potentosa em que o mexicano, bêbado de si mesmo, conhece o fim, no abraço mortal, com outro mexicano” (PAZ, p.134).

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