Ariel Pires de Almeida

Personas – mérito e composição, Barbara Carneiro

In Uncategorized on 15/05/2011 at 23:39

O caminho para a rodoviária é pequeno demais se comparado às minhas vontades. Porém, é justamente ali que cabe a maior delas: a de partir. Na mochila carrego poucas coisas. O que mais pesa é o que está dentro de mim. Minhas verdades insuportáveis, a ponto de eu desconstrui-las até se transformarem em mentiras. Vou embora como se fugisse, mas sem ter cometido crime algum. É claro que dirão que foi por amor, por dinheiro, por qualquer outro motivo que sumi. Nem eu sei o porquê de me arrastar ladeira acima com a mão no bolso apertando com tanta força a passagem do ônibus. Nem eu sei… mas eles criarão uma versão oficial e isso bastará para as gerações vindouras.

Olhando a cor da minha pele penso na mentira que me contei por tanto tempo. Em algum momento da minha vida, soube da existência dos Xhosa e inventei para mim mesma que meu pai era um patriarca desse povo. Meus documentos me desmentiriam, mas a verdade não saltaria aos olhos de quem os visse. Meu pai nunca conversou com ninguém estalando a língua como fonema, mas essa ficção era mais suportável do que me dar conta de que o tataravô branco de alguém escravizara o meu tataravô negro. No fundo, era uma mentira que nada resolvia, apenas romanceava o que era latente dentro de mim, dentro da minha cidade, dentro do meu país. Os Xhosa sofreram tanto quando qualquer povo subjugado, mas elegeram o primeiro presidente negro da África do Sul. Esse homem ganhou o prêmio Nobel da Paz e não precisou jogar o corpo de seu adversário morto no mar.

Meu pai nasceu aqui, cresceu e morreu nessa cidade. Morreu de doença desconhecida. Ou melhor: de problema social sintomático. O hospital – único da cidade – estava cheio de pacientes e quase vazio de médicos. A expectativa de vida na África do Sul hoje é de 49 anos. Meu pai foi um pouco além; com essa idade Nelson Mandela fora condenado à prisão perpétua na ilha Robben e lá começou a escrever sua autobiografia.

Meu pai pouco falava e muito trabalhava. Quem cantava para mim antes de dormir era minha avó. Cantava as músicas de Iemanjá. Quando eu era criança, me acalentava. Mas cresci me perguntando “como posso ser filha de Iemanjá vivendo a essa distância do mar?!”. Foi então que “eu vi mamãe Oxum na cachoeira, sentada na beira do rio, colhendo lírio, lírio lê, colhendo lírio, lírio, lá, colhendo lírio pra enfeitar o seu congar”.

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