Ariel Pires de Almeida

se lê X

In Uncategorized on 30/05/2011 at 15:59

S, z, a, p, i, r,o. Se lê X. Polônia. Gdansk. Ela é Laila. Só, apenas nós duas.

            Eram jovens. Uma muito mais que outra. Outra, menos que uma. Não vinham por passagem, nem passeio. Eram refugiadas, novo conceito advindo das guerras mundiais.

Não vai muito longe, por ora, senhora. O porto fechou na noite de ontem. Tem sangue e luta na cidade. Por atrás da paz, depararam-se.  Foram duas semanas em quarentena política.

            Não afirmou a bela senhora que, a sós no porto, não o estava em vida. Seu amor despertava. Esperava nas imediações. Aclimatado, conhecera o Estado das coisas em meio à crise mundial. Agora, a situação era político social. Por são Paulo, as oligarquias locais se levantaram. Claro que nada muito dura em terras tropicais. Avesso à sangria primeiro mundista.

            Muitos não se acostumam, alguns nem conseguiriam. Para outros, o tempo acatava. Para uns, despertava. Para os mesmos, pairava. Poucas lebres indígenas. Rápidas, sagazes ou mortais.

            Disso, os Szapiro possuíam. Eram rápidos como poucos. Para fugir, amar ou caçar. Pacientes, porquanto. A pequena Laila aguardara poucos anos a rever o pai. Quando chegou, sentia muito calor para contatos humanos calorosos ou úmidos.

            Agilizado, Szapiro tinha sua pequena carroça – licenciada, claro – e vendia pelas cidades ao rededor. De Santos, o trem à Luz que tocariam tantos corações. O transporte não era de todo até S. Bento. Costumam ficar por lá. Até hoje, tal costume é comum e laborioso. Eram judeus, por ora. Italianos, por tanto.

            Um bom retiro. Szap tinha pequeno lojinha. Não vivia mal. Era comum, nas leis costumeiras do Estado, aos imigrantes largarem trabalhos e serviços do terceiro setor. Desde os portugueses do Canindé, passando aos judeus de Higienópolis e coreanos do Retiro. Taubaté, Sorocaba, Campinas eram as passagens. Iam a sós, mas sempre acompanhados de Jeová e um companheiro. Encontravam irmãos pelo caminho e caminhos. Passos.

            Hoje, pareceriam catadores de papelão. Eram caixeiros. Caixeiros viajantes, profissão de alto índice de homicídio e demência. Não tinha medo. Protegia sua vida e de seus iguais. Era qual uma cooperativa. O objetivo, trazer a família dos horrores europeus.

            Daí a vinda das jovens, senhora e senhorita. Laila era um anjo. Calada e curiosa conheceu o bairro como se fosse uma caixa de areia. Pena não ter mais o pônei da vizinha que era feliz e saudável, contraste antinatural da vida em geral. Claro, não alimentariam a pobre Noite com feno ou aveia. Pão e azeite. Pois, sim.

            Não havia muito óleo por cá. Contentar-se-iam com a manteiga do Vale.

            Por meses, havia atravessado o Mar Azul, oceano sem fim. Pra quem anda na barcaça, todo, tudo passa, só o tempo não. No mesmo instante, vi a flor que desabrocha e se desfaz. No convés, ia sombrio, cabeleira de rapaz, pel’água do rio que é sem fim e é nunca mais…

S, z, n, e, l, w, a, r. Eu e os quatro. Henrico, pare! Shlomo! Isaac, olhe teus irmãos, caralho! Warsow, sim, senhor.

            Vieram de mesmo navio. Todavia, com os tumultos, os três irmãos fugiram da quarentena e saíram à luta tupiniquim. Aliados às forças estatais, os jovens fascistinhas, acabaram com a palhaçada. Muito o Sr. Getúlio agraciou o velho Tzvetan propriedade de dois cavalos. Não necessitado de tanto, passou a Szapiro, amigo dos anos 20. Facilitou-se.

            Tzvetan era vivo e bonito. Seu trabalho, religioso, político e médico. Recortava prepúcios. Realizava o pacto primordial. Era acostumado, afinal sangue é vida. Sabia a importância do ato, assim como do não ato de comer porco ou laticínios. A intolerância à lactose fora auxílio divino ao kashrut. Isso porque gostava de queijo e sucrilhos. Um acordo pré-nupcial eliminou essa base de alimentação do pobre Tzvetan.

            Como caixeiro, contratou o velho Szapiro e o jovem Leonel. Era negro este. Feio, quase asqueroso. Bonita era a fala, a linguagem diletante e dialética. Conhecida do mundo. Tinha 16 anos. Szap, 29 e Tzvetan, 35.

            Foi quando adveio a família, retrato dicotômico da vida individual. Era Páscoa, paixão, passagem. E o êxodo estava repleto, completo. Numa ceia recheada de mulheres e jovens, o anfitrião cantava ‘Hu osse Shalom Bimromav?’, término do kadish aos enlutados da guerra. Na diáspora se falava mais do atroz que em casa. A lebre que foge era figura hedionda. Assim como a ovelha que morre. Ou o macaco que não pula ou se balança. Mas, não havia vergonha na Diáspora, apenas na Terra Santa.

S, z, n, e, l, w, a, r. Si, solo nosotras. Por supuesto.

            Vinieran a contento. Traquilas, conoceram el corazon dela pátria argentina. Su entraña. Elaine y Roberta. Al lado, el conocído Max, que habria advindo a la vida inda de mostachos. Era qual gato. Todavia, tu mostacho era de similar singularidad. Memorava aquel del Adolf. Claro, nunca deciran.

S, z, n, e, l, w, a, r. Yeah. Only. Comunists, yeah, sure.

            These came to the right place. On right time, of course. Red as fox, black as panter. Fat as a pig…

Era 1970. Shlomo e Laila compraram apartamento, longe do refúgio retirante. Eram pioneiros da Zona Sul paulistana. Endinheirados, venderam o carro e seguiram ao norte. De Corumbá a Machu Pichu. De lá, ao Panamá, Costa Rica, México e Las Vegas.

            Em época, era deserto. Estavam eles, os filhos. Bonitos elegantes. Tinham a vivência de Leilo, não a experiência. O mais velho era curioso, esperto. Nascida em mesmo dia, Ceila era birrenta, mala e indiscreta. Como era quente Las Vegas.

            Finalmente, Canadá. A família roxa.

You´ll stay with us. The kids gonna sleep with their friends. Never underestimate the good manners of a jewish cannadian host. She was fine, but not the situation. Marely was fat as a cow, but beautifull as a brunette. Hot as a candle, burned from the inside. Bob was open and jolly. Merry, they´d say. The kids were young. Celia wasn´t affected by their presence as so their absence. She liked loneliness as it was. Free and uncaring.

            Laila desgostou. E como! Mas, divertia-se com o humor judaico bolchevique de suas tias. Não era contente com o comportamento do marido, isso não. Ao lado de Bob, Shlomo atirou-se nos pecados libidinosos da gula, o mais difícil de livrar num antro judeu.

            Em Toronto, não se misturavam com a gente reacionária, mesmo os próximos familiares. Daí a recusa de Isaac em acompanhá-los na visita. Era independente, religioso e matreiro. Mais que os irmãos. Henrico trabalhava. Havia conseguido emprego nas forças especiais públicas do estado. Seria doutor nos calabouços da ditadura. Era época de muito trabalho e pouca moral. Não iria, tampouco.

            Passaram-se meses.

These months have been perfect, Just perfect!. Kiss the boy, the family and, of course, the comrad´s portrait. Heil, Sztalin!

            Bob ria…

1950. Finalmente, a vida recrudescia e os tomates amadureciam no calor da madrugada. Enrolados em jornais e seguros de suas mochilas e equipamentos, seguiram a Assunção, no fusca do Sr. Shlomo, engenheiro da região. A contento, seguiriam Buenos Aires, revendo famosa prima, Elaine Vasquez. Não era Sznelwar, nem vermelha. Peronista e porteña.

            Quando chegaram, a notícia. Havia nascido outrora Isabelita e morta Evita, xará de Eva Braun. A cidade parara. Não havia motivos a comerciar ou gastar. Nem mesmo a um hebreu. Novamente, os irmãos recusaram presença. Desgostavam tampouco dos porteños, peronistas ou que seja.

            Que desgosto! A Noite escurecia e recrudescia o amor e vantagem. Invejava Elaine. Era verdadeiro astro do piazzolismo local. Malx bandoneava, enquanto a pequena dançava com rapazes e garotas. Era livre como tantas na região. Para Laila, era um tanto desagradável.

            Acostumada às lambanças carnavalescas do Bixiga, problematizava a sensualidade do tango. Questionava o erotismo da rumbia. E o beligerantismo latino americano. Desgostava.

            Não era fresca, mas conhecia o encanamento do Porto. Conhecia de sua infância. Aquelas três semanas apreendida em Santos, em meio à revolução. Não bebia do cano. Jamais.

            Elaine estava histérica. Desconcertada, fingia e fugia dos desencantos mortais da vida contratual do Porto. Era agitada, morosa e impiedosa. O luto silencioso. Um silêncio que urrava. Gemia, transava. Retrocedia a tempos imemoriais. Atemporais e disjuntivos.

            Perdera-se no tango imoral do peronismo. Laila não sabia como faria. Era sagaz, mas perdida nos encantos da cidade. Decaída, estava linda. Shlomo descursava de forma imperial as maravilhas de um contrato liberal. Era enfadonho ouvi-lo falar. Fazia injúrias ao regime autoritário e auxiliador das classes desprovidas. Desprovidas porque gostam.

Imperioso falar desta forma nova de governo, forte e fulgaz. Sem escrúpulos, o jovem Peron era elegante e astuto. Desprovido de lábias foscas, não qual seus irmãos ítalo-fascistas, era forte. Em Brasil, chamavam integralistas. Plínio Salgado virara físico de renome. Neutro nas ciências pseudo-científicas.

Eram ricos na terra de Juan. Ricos em cultura e afetação.

No futuro, Laila lembraria deste frio dia. Fora melhor que em Toronto.

1985. A perestroika abria. Ceila vivia em Israel. Laila sempre a visitava. Partia da Grécia a Tel Aviv. El Al. Naquele dia, as malas extraviaram. Estavam nas colinas do Tibete. Passariam cinco dias até retornarem. Fora dada a quantia de cinqüenta dólares pelo inconveniente.

            Comeram falafel naquela tarde. A mistura de alho, cebola, tomate e gergelim faziam da experiência intragável para a meiga Ceila. Não estava mais de birras ou intrigas, mas odiava o kashrut.

            Fora comprar peixe. Cação, tainha. O odor era familiar e descritivo, azedo, salgado. Apesar da frescura, a menina Sznelwar curtia uma peixaria. Sentia-se no mar, rodeada de vida. A morte, sabiam, era próxima, mas tal qual vida. Quando pescava, passava no mar morto para salgá-los. Notoriamente, faria um guefilte.

            Acompanhado da brisa úmida e fria da Noite, trabalhavam juntas. O cristão velho marido doutor brincava. Era contente o jovem. Pai de três, não fazia idéia do que a vida reservava. Foram à peixaria. Era Iom Haatzmaut. Há pouco, Shoá.

            Na fila, pensava no Shoá. Vira aquele retrato arquitetônico de Peter Cohen. O cheiro de peixe atiçava a imaginação. Por isso, gostava tanto. Sentia-se num gueto. Solitária na comunidade. A fila alongada. O aguardo, complicado.

            Dizem que havia mostras de arte. A primeira, da arte verdadeira. A última, degenerada. O judaísmo bolchevique impregnou o meio intelectual europeu. Agora, subia o aroma das tripas sendo limpas. Lembrava dos cabelos queimados nas ruas de Berlim. O projeto T4, desenvolvida na capital prussiana. Limparia o Corpo Alemão dos degenerados. O problema, a proximidade faria tudo complicar diante de uma opinião pública matreira para com os subterfúgios da censura. A falácia era formada por médicos, doutores do Corpo. A limpeza desta organicidade coletiva se faz na eliminação dos corpos doentes e distantes. Saúde e beleza, que era tristeza. O tratamento se dava com choque.

PRÓXIMO!

Voltou a si. Não havia cação. Voltou a si.

            Por um momento, ficara atônita. Sentou-se numa caixa de madeira que lembrava peixe. Não havia. A pena apimentava as lembranças dos horrores. Não conhecia pelo Estado, mas pela mãe.

            Levando em conta que sua ideologia partia desta, uma premissa estética – a beleza como ideal de progresso e esta embasada na saúde não miscigenada e, portanto, pura – parece-me bastante coerente tê-la como referência de análise. Muitos desenvolveram uma ideia de um estudo político-econômico ou social acerca do Nacional Socialismo. Entretanto, será que foi de fato o autoritarismo, o controle estatal da economia ou o status beligerante que resultou no maior e mais organizado sistema de massacre? Desses temos muitos casos e, por mais que também tenhamos de genocídios, nenhum com a mesma proporção que o perpetrado pelo regime nazista. Nem com armênios, bôsnios ou tutsis. Alguns se assemelham – especialmente os primeiros -, mas as diferenças são tais latantes quais as semelhanças.

A estética da pureza, idealizada por Hitler na figura espartana, recria as funções sociais de cada classe. Dá um novo sentido à medicina, um quase novo objetivo à arquitetura e urbanismo e um estilo radical à política, economia e guerra. Se a “guerra total” é o novo conceito introduzido pela Revolução Francesa e consolidado ao longo da unificação alemã, com Hitler, atinge seu extremo quando a população civil não só é vitimizada e posta para trabalhar para a indústria de guerra como também é perseguida e chacinada pelo monstro que ajudou a criar.

            Hitler tinha verdadeiro fascínio pela antiguidade. Seu norte eram as civilizações ateniense, espartana e romana. A primeira por seu ideal estético – detalhe é que o Fuhrer proibiu o bombardeamento de Atenas. A segunda pela pureza e a terceira pelo caráter expansionista. Interessante é ressaltar o paradoxo que inclui essa estranha síntese. Afinal, é possível a pureza com a expansão? É possível um ideal de estética não miscigenada pelo domínio de outros povos? É possível conquistar o outro sem considerá-lo ao menos exótico ao invés de indigno para a vida?

Pensar essas questões é o mesmo que se questionar se o Holocausto fora fruto de barbarismos ou de extrema racionalidade. A ideia é predominantemente dialética.

Então, pensou na discussão, por um momento.

O processo que desencadeou o extermínio foi longo e penoso. Em 1940, auge da expansão nazista na frente ocidental, os judeus ainda eram colocados em guetos ou campos de trabalho forçado. As mortes eram de velhos, crianças e inválidos. Quando, em 42, os norteamericanos entram na guerra e Hitler, ao mesmo tempo, embarca na fracassada aventura napoleônica russa, a “solução final” para a questão judaica finalmente esboça seu último e terrível desenvolvimento. Os campos de extermínio, dentre eles Auschwitz e Treblinka, revelam o conteúdo final da lógica nacional socialista. Se o fim último é a beleza e o meio único a pureza, a resposta definitiva só poderia ser o extermínio.

Os requintes cruéis e sádicos não são necessários de explanação. A questão é que jamais fora visto algo parecido. Uma máquina estatal burocrática de alta tecnologia à serviço do extermínio étnico.

Tem-se que pensar o que isso implica. Trens, horários, cartas, escritórios, gravatas, médicos e arquitetos. As fichas perfuradas desenvolvidas pela americana IBM serviram para catalogar de modo único a massa de judeus existente no império alemão. Um total de onze milhões. O conseguido: seis. O profissional encarregado, o médico. O local, longe dos centros urbanos, pois as experiências do T4 com doentes em 1933 revelaram certos problemas. A fumaça dos crematórios infestava Berlim e pelas ruas era possível notar fios de cabelo parcialmente queimados.

O campo de testes: a Polônia ocupada.

Levaram os judeus, portanto, em carga como animais. A viagem em si já era um matadouro. Chegando à noite, sem saber o que esperar e sufocados com o odor da morte, as ovelhas seguiam para o abate. Seus corpos eram aproveitados ao máximo para tecidos, sabonetes e experiências. A medicina alemã era a mais avançada. Desenvolveu-se uma técnica limpa e humana para o genocídio, a câmara de gás. Concluiam o processo de desumanização dos judeus fazendo com que os próprios trabalhassem como “carcereiros” de seus irmãos, catadores de corpos e cremadores.

Concomitante, os cinemas passavam propagandas do novo método de matar ratos e pestes: o gás.

            Novamente, o odor embriagante.

De repente, um estrondo. Pedaços de couro humano e prepúcios semitas voavam pela janela. Rabinos médicos corriam em volta da peixaria. Ceila não respirava. Mãe de três, perdia-se no ódio fraternal semítico. Não sobreviveria. Era jovem. O cristão velho não aturou. Fugiu. Levou o filho mais novo. Abandonou o resto.

CATEGORIzaríamos, talvez sem grandes delongas, o amor segundo dois eixos balizados em uma duplicidade qualitativa, multiplicidade quantitativa, e entretanto assegurados distintamente segundo um mesmo princípio prático – do qual nos deteremos adiante.

            Teríamos, portanto, o amor paterno e o materno, sintetizados no glorificado amor fraterno ou fraternal, o mais altivo, altruísta, honroso e leal. Aprende-se a valorizá-lo com encontros inesperados na parede de concreto e em momentos redimensionados de solidão autêntica. No meio urbano, tudo que temos são nossos amigos, verdadeira família. No campo, a biológica se basta. Pensemos em tais e quais incestos tão dignificados sejam na literatura culta seja na de cordel.

Sinto-te informar, a nostalgia não existe. Sim, constatei. Pense no frio, você que me lê em janeiro. No quente, você, em agosto. Não consegue, não é? Não é possível sentir o calor no inverno.

            Assim também é com os sentimentos. Quando se chora, não é lembrado o som do doce riso. Quando se ensandece, não se avista o luminoso aceno da razão. Do que nos nostalgiaríamos, então? Se nada é possível rememorar, apenas inventar? Se existe apenas o presente e o chamado ao futuro, o que nos diriam sobre o pretérito? Além do que já está claro no agora? No então?

            Se a memória é o recalcado, o que é a rememoração senão o preenchimento do vazio do recalque? Entretanto, o vazio está esvaziado. Logo, a lembrança e a nostalgia que a segue é apenas a invenção de um cérebro conturbado. Conturbado pelo presente.

            Coloco-me na vida como um bandoneón se encontra na orquestra triste e insana do gingado do tango. Ora, estufa o ar para dentro de si. Expele um grunhido desesperado, agudo, alto e enebriado. Ora, o expulso de forma resignada, grave e melancólica.

            Cada movimento dura o tempo de uma nota, de uma vida, de uma semana, um ano. Um pêndulo que se move ao gosto das estações. Mas, sempre, um gesto que segue outro. Impossível expulsar o ar e logo enxotá-lo novamente.

Como na respiração.

No primeiro gesto, sinto-me aberto ao mundo. Festejo, remelejo de forma única, satisfeita e louca . No segundo, expulso os demônios que permiti adentrar em meio a tanto descuido. Mas, com eles vão também os anjos e os indiferentes, os comensais.

ReTorno-me a solidão.

            É um movimento necessário, incompreensível, mas estável em toda sua instabilidade. Estático em movimento.

            Diz-se das guerras no Mediterrâneo em tempos imemoriais: aconteciam no verão com a calmaria dos mares. Com a chegada do inverno: a torrência, o frio e, por conseqüência, a paz. Existem, sim, explicações de ordem conjuntural, acontecimental para tais acidentes políticos. Mas são apenas as espumas da onda. No fundo é clara uma relação com algo superior, místico poderíamos dizer.

            Dois fenômenos podem ser seguidos pelo derradeiro momento final de todo homem. Ou, abre-se tanto que o tecido se corrompe. Ou, quando se expulsa, já fragilizou-se tanto a estrutura a ponto de não poder mais esticá-la. Acho que o segundo me compete, apesar de ter tido oportunidades de experimentar o gosto da overdose cardíaca do primeiro.

            Estou na escuridão solitária, vazia. Nu(a). E não consigo recordar o que seria estar vestido, ativo. Estou pensativo. Não consigo desfigurar-me dessa situação. Embaraço-me em meus descuidos infantis. Ontem, não faria isso. Me auto definho a cada dia. Em cada reflexão. Em todo sentido. Arrancando-o por completo.

            Não há como lembrar a sensação da claridade, do calor no mundo em que estou. Sabe: os mediterrânicos falam de humores. Distinguem-nos dentre quentes/secos e frios/úmidos. Mas, o que faço se o clima de minha realidade é fria/seca e quente/úmida? De que me serve a sabedoria do mare nostrum se meus ventos trazem tempos diferentes de diferentes metereologias, divergentes geografias?

            Aos cães com a mitologia, simbologia, sabedoria! Basta de helenismos!

            Se a nostalgia da democracia grega não esclarece a realidade do conceito, sentimento ou questão no mundo velho, branco e europeu, por que iluminaria algo daqui?

            Talvez tudo que eu haja dito nunca tivesse ocorrido. Busco preencher espaços vazios a caneta. Mas, meu instrumento e caminho é o presente. Se não consigo sentir o passado, resta-me sua invenção para que possa legitimar esse meu presente. Aceitá-lo.

            O que existe não são a valsa do tango ou o choro do minguar. Possuímos o bandoneón e temos o ar. A música – alegre, triste, leal ou melancólica – é o passo do relacionamento. Conseqüência do gesto de respirar, de comunicar. Ou mesmo, apenas de se relacionar com a atmosfera que cerca nosso instrumento…

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