Ariel Pires de Almeida

A INVENÇÃO DA IDENTIDADE NACIONAL

In Uncategorized on 26/06/2011 at 23:12

 

Este trabalho tem por objetivo a análise da construção das identidades nacionais da América Latina no século XIX. Para isso, enfocarei no pensamento do argentino Domingo Faustino Sarmiento colocado de modo marcante em seu primeiro trabalho Facundo (1845), escrito apressadamente no exílio do Chile e pontuado por erros de naturezas diversas, mas considerado clássico do pensamento político latinoamericano. Segundo Maria Lígia Prado, no capítulo Para ler Facundo de seu livro América Latina no século XIX: Tramas, Telas e Textos, “ao propor a dualidade civilização e barbárie, Facundo ultrapassou os limites da Argentina para se estender pelo território latinoamericano, animando controvérsias e contribuindo para a cristalização de certos estereótipos sobre o continente”. Apesar da ressalva final feita pela autora e que será debatida também ao longo do trabalho, fica-se claro que estamos diante de uma obra cujo alcance e utilidade teórica vai além das fronteiras formais da literatura ou da historiografia argentina. Mesmo assim, a primeira tarefa que esse estudo necessitaria se propor é a análise do contexto político e social em que a obra foi escrita. Assim, um momento deve ser dedicado ao estudo da luta entre o governador de Buenos Aires, Juan Manuel Rosas (1829-52), que acabará, por diversos acordos, a governar toda a Argentina, e, seu opositor, autor do livro que me proponho a analisar e que gorvernará a Argentina a partir do final da década de1860. A guerra civil que cindirá o país por quase meio século entre unitaristas e federalistas é o que está por trás de toda a construção da obra de Sarmiento.

Entretanto a importância dessa reflexão acredito estar além do estudo apenas da identidade nacional argentina. O texto de Sarmiento nos conduz a reflexões amplas que tocam não apenas nos aspectos práticos da construção do Estado-Nação argentino, nas lutas entre caudilhos ou mesmo nos contrastes entre dois projetos políticos de nação, o unitarista defendido por Sarmiento e o federalista de Rosas. Sua obra e especialmente sua personalidade e vida, o contexto de sua escrita, coloca a possibilidade de nos encaminhar a um debate historiográfico quase tão antigo (talvez fosse melhor dizer ‘moderno’) quanto a própria existência do debate historiográfico nos moldes como o enxergamos hoje em dia: a nação e o nacionalismo.

Não por acaso essas duas palavras são encontradas num grande rol de títulos de obras de historiadores, sociólogos e cientistas políticos. Um deles, publicado em 1990 do inglês Eric Hobsbawn, intitula-se justamente Nações e Nacionalismo desde 1780 e o utilizarei para embasar a discussão. Nele o caráter essencialmente moderno do conceito de nação passa a ser o centro de sua análise. Contrapondo-se à visão predominante do senso comum que afirma ser o sentimento nacionalista resultado de uma unidade psicológica, étnica e lingüística, o autor enfatizará o elemento de artefato, de invenção e de engenharia social que de fato carrega o fenômeno da formação nacional e o respectivo sentimento de pertencimento a uma pátria. Este só poderá ser compreendido com vista na formação do estado territorial moderno que só será encontrado em sua forma plena em algumas regiões do mundo a partir do fim do século XVIII e início do XIX. Não há nenhum acaso que o estudo da História passará na mesma época por uma mudança qualitativa em sua abordagem e método, assistindo a um processo que a colocará dentre as ditas ‘ciências’, o que na época significava sua equiparação com as ciências naturais. Essa questão da incorporação das premissas das ciências naturais nas sociais pode mesmo ser vista na obra de Sarmiento em sua quase obsessão classificatória e tipificadora do mundo social argentino. Classificará os tipos sociais como um biólogo classifica uma planta ou um animal. Apesar disso, a questão que se coloca é que o processo de formação e consolidação dos Estados-Nação no ocidente europeu e nas américas se deu concomitantemente com a elevação da História ao status de ciência com metodologia e aplicação própria. Essa coincidência, como já foi dito, não foi por acaso. “A tarefa de construir a nação associava-se ao dever de construir sua história” (Prado).       

Nesse sentido, a figura de Sarmiento é emblemática sob quatro aspectos que se ligam aos diversos livros que Doris Sommer (1991) afirmou exitir em Facundo: meio ficção, meio biografia, meio história política, meio manifesto. O primeiro aspecto diz respeito ao caráter ficctício do livro. Seus erros e imprecisões, resultado de falta de conhecimento em questões que tanto busca enfatizar, são paradigmáticos e, de primeira, já colocam vários exemplos de invenção da nacionalidade. O fato de eleger Buenos Aires a cidade utópica onde a idéia de civilização estaria inscrita sem nunca ter pisado os pés nela já exemplifica bem o que quero dizer. Defeito similar está quando analisa o tipo gaúcho em toda sua rudeza e barbárie, um dos cernes de sua linha argumentativa, sem também conhecer a região dos pampas. Esse “espírito” de pouca fidelidade a certos fatos que acaba norteando a obra que para alguns é motivo de anular sua importância, expõe de maneira clara a invenção da sociedade argentina pelo autor e não sua interpretação. Não que essa prática seja seu monopólio ou de seus partidários do unitarismo. Semelhante falta poderá ser vista também em seus opositores. Martín Fierro, obra escrita em meados para o fim do XIX, e a exaltação do gaúcho dos pampas acabará pecando também nesses pontos, apesar de não buscar uma análise científica e sim a composição de uma poesia romântica.

A partir da análise desses dois ideais (o que barbariza o gaúcho e o que o exalta) e dos períodos em que cada um se “oficializou” como um culto nacional, chega-se a conclusões semelhantes a que chegou Enrique Florescano em seu livro História, para que? no capítulo De la memoria del poder a la historia como explicación: “Cada vez que um movimento social triunfa e impôe seu domínio político sobre o resto da sociedade, seu triunfo se volta à medida do histórico: domina o presente, começa a determinar o futuro e reordena o passado: define o que recuperar do imenso e variado passado e o porquê da recuperação”. Assim, Rosas que terá uma imagem endemoneizada por Sarmiento, assumirá a partir da década de 1920 o papel de “verdadeiro” representante da argentinidade e o gaúcho se transformará na expressão da ‘essência do ser nacional’. Esse movimento é bastante revelador e sua análise, apesar de não ser o centro do estudo que pretendo fazer, de extrema importância para a compreensão desse processo de construção da identidade nacional.

O segundo aspecto que emblematiza a figura de Sarmiento é como sua análise acaba por voltar suas costas à América e observar a Argentina como quem olha da e para a Europa. O desvendamento da vida política da América do Sul acaba ganhando legitimidade na medida em que pode ser compreendida por um público europeu. Maria Lígia Prado elenca as principais fontes do autor para a constituição de seu pensamento e obra. Dentre eles, Buffon, Saint-Hillaire, Montesquieu, Dumas, Guizot, Michelet, Tocqueville e outros. Como afirma a autora, “se houvesse organizado uma listagem dos sul-americanos, sua imodéstia lhe teria, provavelmente, reservado o primeiro lugar”. Nesse sentido, a invenção carrega consigo a importação, algo típico no pensamento latinoamericano e bem estudado por Eugênio Rezende de Carvalho em seu, Nossa América.

Mas são o terceiro e quarto aspecto da obra e da vida de Sarmiento que buscarei enfatizar como emblemáticos de um construtor da nação e da história argentina e latinoamericana. Ambos estão relacionados e dizem respeito à formação política de Sarmiento e à forma panfletária de Facundo. O texto é, em seu todo, um ataque direto a Rosas e Facundo, considerados produtos naturais da sociedade argentina num determinado ponto de sua evolução: “constituíam típicos produtos do campo argentino, onde não havia associação nem espírito público” (PRADO). Interessante é que essas duas personagens da história argentina eram as inimigas políticas de Sarmiento que, depois da deposição de Rosas em 1852, firmaria-se na política, elegendo-se presidente em 1868. Acaba sendo no mínimo interessante, pela ótica que estamos apresentando que um dos maiores clássicos do pensamento político latinoamericanotica, elegendo-se presidente em 18eposiçm determinado ponto de er compreendida por um pe recuperar do imenso e variado passado  tenha sido escrito por um presidente.

Mas não devo aqui ignorar os méritos da obra de Sarmiento. Considerando as ressalvas que fiz (e que serão o centro deste trabalho), Facundo na Argentina continua sendo uma referência fundamental. E, apesar de nossos preconceitos com os argentinos, não devemos pensar que isso acontece porque seriam ‘burros’. Temos aqui também nossos clássicos que criticamos, mas não deixamos de considerar pelas suas amplas qualidades. “Um historiador do porte do socialista José Luís Romero também tinha Sarmiento em alta consideração: ‘(…) é imortal, Sarmiento, o Grande, e seu nome sobreviverá, apesar dos ódis daqueles que quiseram – agora e antes – escarnecê-lo e humilhá-lo”. Digo isso para afirmar: esse trabalho não tem esse objetivo. As críticas que pretendo colocar não negam a importância da obra de Sarmiento, busca uma análise crítica da construção/invenção da identidade nacional latinoamericana, focando-se na Argentina de meados do XIX.

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