Ariel Pires de Almeida

visao do paraíso

In Uncategorized on 26/06/2011 at 23:13

            O problema que entorna a análise dos textos de Antônio Augusto Marques e, especialmente, de Sérgio Buarque de Hollanda é a questão do impacto da descoberta do Novo Mundo na Europa renascentista. Estamos diante do momento que, segundo Todorov, “anuncia e funda nossa sociedade presente”. É a partir de então que o mundo é revelado em sua finitude. “Os homens descobriram a todalidade de que fazem parte. Até então formavam uma parte sem todo”. Entretanto, ainda segundo Todorov, não é um impacto apenas em termos da visão do homem sobre o mundo que está a seu redor com todas as implicações físicas, metafísicas e teológicas que vêm junto à constatação da finitude da Terra e da infinitude do Universo. É também o impacto de um encontro do homem europeu com a alteridade, com o Outro, representado pelos indígenas americanos. Essa constatação da existência da diversidade, a descoberta de povos com estruturas sociais tão complexas ou mais que a européia, levarão a tantas ou mais inquietações quanto a primeira e que também provocarão tantas discussões quanto ela. Essas duas formas em que se dará o impacto dos descobrimento na mentalidade européia, de certo modo, resultará no processo de desligamento das interpretações medievais do homem em relação a ele mesmo e ao mundo que o cerca e que teria como prolongamento uma laicização gradual do pensamento.

O Renascimento é um período em que o conhecimento confronta o natural e o maravilhoso, o experimentado e o imaginado em uma mistura por vezes confusa e estranha para nosso espírito pragmático e cientificista. E, de fato, não podemos falar em ciência nessa época. A atitude científica, pregadora do método puramente empírico de análise do real, ainda não existe. O conhecimento é alçado por estudos como os da Retórica, da Magia, da Astrologia e da Alquimia que consideramos hoje tão ineficazes quanto anti-científicos. Mas o que é preciso salientar e que é uma das bases da argumentação de Sérgio Buarque é o vigor alcançado por esses estudos que são parte da base do conhecimento moderno não apesar desses métodos “anti-científicos” e, sim, de certa forma, por causa deles. A Retórica é vista comumente como apenas um ornamento do discurso, um falar pomposo, brilhante na forma, mas pobre nas idéias. Apesar de terem seus motivos essa visão negativa em relação à Retórica, ela ignora o quão positivo é um método de apropriação de conhecimento que privilegia a discussão, o debate. Extremamente regrado e normatizado, um debate retórico poderia durar dias e dias, senão semanas. Nosso espírito pragmático não consegue conceber o benefício, em termos de desenvolvimento filosófico e cultural, que tal exercício pode ter na mentalidade humana. A Magia a nós também acaba confinada no mesmo espaço que fôra outrora colocada pela igreja, sendo desprezada quando não perseguida pelos teólogos do positivismo. Nos meios acadêmicos, entretanto, esse preconceito foi, aos poucos, (especialmente no século XX) sendo substituído por um maior interesse no que de fato era uma forma de apropriação de conhecimento. No campo historiográfico, esse resgate será feito pelos estruturalistas franceses da Escola dos Annales nos estudos de história das mentalidades. Como afirma Sérgio Buarque de Hollanda: “parece exato dizer que durante a era quinhentista e ao menos até Giordano Bruno e Campanella, se não mais tarde, as idéias mágicas alimentam constantemente a mais conhecida literatura filosófico-teológica”. Até um Francis Bacon não impediu a infiltração em sua teoria de príncipios um tanto mágicos e ocultistas e, apesar de criticar a Astrologia, não irá rejeitá-la em seu todo. O conhecimento se dava, assim, de forma especulativa em que  “ânimo ocioso” se ajusta com a “imaginação aventureira”, de modo que não hesitavam em adornar, “idealizar ou querer superar a qualquer preço o espetáculo mundano”.

Em virtude desse preconceito contra essas formas ditas anticientíficas de apropriação de conhecimento, é muito comum encontrarmos autores que exaltam o pragmatismo português, sua adesão ao real e imediato, como características de um espírito moderno, pré-científico. De fato, teremos nos relatos dos viajantes portugueses uma certa sobriedade que contrasta em muito pelo gosto da maravilha e do mistério tão comum na literatura dos grandes descobrimentos.Em Pero Vazde Caminha e Frei Vincente de Salvador, por exemplo, já se pode bem ver um “realismo desencantado”, voltado para o concreto e particular. Não se animarão com lendas como a do Paraíso Terrestre ou da terra de El Dorado. Procurarão ver o que realmente existe e não através dos disfarces da fantasia. Nessa recusa ao maravilhoso e à fantasia, muitos autores buscarão vislumbrar um progresso do pensamento português em relação ao resto da Europa, afirmando serem os portugueses os precursores da moderna objetividade que permitiu o desenvolvimento da ciência experimental, numa época em que a Europa se deixava dominar pelo mistério sem discernir o possível do impossível. Sérgio Buarque afirmará, ao contrário, que esse espírito é fruto de um conformismo medieval não de um pragmatismo moderno. Imbuídos da crença de que o Paraíso só é alcançado após a existência nesse ‘vale de lágirmas’ e que este se localizava no além-mundo, não irão buscá-lo com ansiedade em todos os cantos do mundo.

O contraste é colocado com a vertente espanhola da descoberta e conquista, refletida nos textos de viagens, em particular dos relatos de Colombo. Todorov afirmará que um dos traços da mentalidade de Colombo é o que ele chamou de “estratégia finalista de interpretação”, quando o sentido final é dado imediatamente e o que se procura é a ligação com o sentido inicial. Seu argumento decisivo não é o da experiência, mas o da autoridade. Não se trata de procurar a verdade, mas sim confirmações para uma verdade já conhecida. Todorov cita o exemplo de seus relatos de seres fantásticos como ciclopes, homens com cauda, amazonas e, em particular, as sereias que, quando são avistadas, é constatado que “não são como se disse belas mulheres”. “No entanto” segundo Todorov “em vez de concluir pela inexistência de sereias, troca um preconceito por outro e corrige: as sereias não são tão belas quanto se pensa”. Sua grande façanha também tem relação com esse comportamento: ele não descobre a América, “encontra-a onde ‘sabia’ que estaria (onde ele pensava estar a costa ocidental da Ásia)”. No meu ponto de vista, além desses exemplos constatarem a relação com o fantasioso e o predeterminado na mentalidade renascentista, há também uma relação com a questão da Retórica que colocamos anteriormente. Em primeiro lugar, há o fato de a Retórica ser um método de conhecimento extremamente regrado que induz inevitavelmente à criação de grandes ‘conceitos’. Em segundo lugar, estes serão construídos e defendidos não apenas por constatações empíricas e o apoio da autoridade, mas também por argumentos e comparaçãoes metafóricas, “poéticas” e que muitos chamariam de fala empolada, exageradamente pomposa. Por exemplo: “Descobri que o mundo não era redondo da maneira como é descrito, mas da forma de uma pêra que seria toda bem redonda, exceto no local onde se encontra a haste, que é o ponto mais elevado; ou então como uma bola bem redonda, sobre a qual, em um certo ponto, estaria algo como uma teta de mulher, e a parte deste mamilo fosse a mais elevada e a mais próxima do céu, e situada sob a linha equinocial neste mar Oceano, no fim do Oriente” (Carta aos reis, 31/8/1498). Por mais que pudéssemos ridicularizar tal comparação, devemos antes pontuar o simples significado dela ter sido feita. Exprime o desejo de compreender e interpretar algo que não era possível ser colocado e afirmado com a certeza que temos hojeem dia. Nãopodemos notar com tal nitidez essa vontade de interpretar o mundo nos portugueses.

E mais, não podemos notar nos portugueses nem o afã de conhecer o mundo. Colombo quer a tudo conhecer e a tudo relatar. Segundo Todorov, para Colombo a descoberta estará subordinada ao objetivo do relato de viagem. “Dir-se-ia que Colombo fez tudo para poder escrever relatos inauditos como Ulisses”. Essa vontade de a tudo observar, para Todorov, tem algo que se aproxima de nossa mentalidade. Descobrir, para ele é uma ação intransitiva que não tem objetivo utilitário ou prático. Colombo parece encontrar na descoberta da natureza, um prazer que faz com que essa atividade se baste. Assim como, para o homem moderno, uma coisa, uma ação ou um ser são belos apenas quando justificam-se por si mesmos. Eu tendo a relacionar essa ‘ação intransitiva’ de Todorov com o ‘ânimo ocioso’ de Sérgio Buarque, apesar de não terem uma real ligação e dizerem respeito a questões, se não diferentes, ao menos confrontadas de maneiras totalmente diversas. Esse ‘ânimo ocioso’ é o da impaciência de tudo resolver, generalizar e que, ajustado com a imaginação aventureira, resultará que “de onde mais minguada for a experiência, mais enfunada sairá a fantasia” Vejo uma semelhança entre o observar sem buscar sentido e o buscar sentido sem realmente observar. Ambas pressupõe o ócio e o trabalho mental envolvido nessas formulações que envolvem as classificações e normatizações típicas do método clássico de apropriação de conhecimento.

Voltemos, por fim, à questão do impacto dos descobrimentos tão ligado a essas inquietações renascentistas que levam à confusão do natural e do maravilhoso. Esse impacto, como já foi dito, foi o primeiro passo para o desligamento das interpretações medievais da realidade e para a conseqüente laicização do pensamento. Mas então quem sofrerá com esse impacto? Serão os portugueses que passaram impermeáveis por todas essas inquietações? Ou os espanhóis que tanto pensariam nelas?

Com relação ao segundo impacto mencionado, o do encontro com o Outro, serão os espanhóis novamente que se mostrarão preocupados em debater de forma ampla o estatuto do indígena aos olhos de Deus e deles mesmos. Esse debate se deu em Valadolid entre o frei Bernardino de Sahagún, defensor da tese de inferioridade dos índios, e o frei Vitória de Las Casas, defensor da tese de igualdade. Essa discussão terá a forma clássica de um confronto retórico em que cada um discorre por horas seus argumentos no decorrer de alguns dias. O encontro pode ser considerado um dos primeiros momentos do que viria a ser um estudo etnológico ‘moderno’, porém pautado por aqueles métodos considerados comumente anti-científicos, ineficázes, quando não inúteis.    

 

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